A maior contribuição da “nova política” do Brasil, além da vassalagem à geopolítica dominada pelos norte-americanos sob os auspícios do emagrecimento da Petrobrás e da desossada praticada contra o Estado Brasileiro, é a descoberta oficial de que o centro da divulgação da mentira massificada encontra-se mesmo dentro do Palácio do Planalto.

Essa dádiva à verdade foi dada, publicamente, pela Direção do Facebook, que ligou 73 contas falsas ao centro do poder político brasileiro. A manchete do jornal está assim: “Facebook remove 73 contas falsas ligadas aos Bolsonaros” (Folha de São Paulo, 9/7/2020).

Existe precedente na história do Brasil de tanta vilania, de tanto apodrecimento da moral pública?

O hábito impune que influenciou nas eleições de 2016 construiu o vírus que atacou, e ainda ameaça, a incipiente democracia brasileira, quando elegeu o “vírus” que propaga a necropolítica.

“Necropolítica” é o agasalho da morte no discurso e na política do poder, que subjuga a vida, valor ético-jurídico consagrado como primordial na Constituição do Brasil. Esse conceito foi construído pelo filósofo camaronês Achille Mbembe, no ensaio que leva esse mesmo nome.

Sob a luz desse conceito pode-se didaticamente colocar os atos e palavras do Presidente da República. Devoto explícito da tortura e sacristão devotado do maior torturador da fase brasileira do “nunca mais”, eleito, é verdade, por cinquenta e sete milhões de brasileiros, cristaliza só com essa impulsão a centralidade preferente de sua política.

Hoje se sabe que a vida está celebrada na sua ligação com o meio ambiente saudável, tal como previsto na nossa Constituição. No entanto, a palavra presidencial reiterada incentivou incêndios na Amazônia e desmatamentos e invasão mineradora de terras indígenas – “Bolsonaro tem sabotado os órgãos ambientais” (Valor, A19, 9/07/2020); o “Desmatamento já causa ‘bloqueios silenciosos’” (Valor, 9/07/2020) –, devido à maior exigência de compradores internacionais ao agronegócio.

O receituário da cloroquina, sem aprovação científica para debelar a formidável crise sanitária reproduzida pelo mundo no Brasil, ultrapassa o limite da atuação de um Presidente da República, e sua reiterada aparição pública, sem máscara, pode ser considerada como um propagador do vírus. Tanto que o atingiu, fazendo-o vítima de sua própria opção.

Outra questão ligada a essa surge da interrogação: qual teria sido a motivação expressa, e legalmente necessária, para sustentar a compra gigantesca de cloroquina pelo Exército? Não se pode alegar que o presidente, travestido de médico ou cientista de ocasião, quer porque quer que sua vontade imperial seja seguida. Com isso não se atende ao interesse público, o único que justifica atos administrativos. Qual será a motivação necessariamente escrita para tal compra? Eis o que se deve saber.

Seu confronto, sem razão nem lei, com governos estaduais e prefeitos, culpando-os pela negatividade humana da crise sanitária, é um despautério absoluto, porque a Constituição fixa claramente a competência de cada ente federado, e cabe à União a coordenação de políticas adequadas a cada região do país.

O não cumprimento dessa imposição legal está debitada na conta da responsabilidade genocida. Não fez, não faz, e culpa os outros que estão fazendo. E o Supremo Tribunal Federal só decidiu para lembrar a Constituição jurada de cumprimento, por autoridades civis e militares.

Para a necropolítica, o poder soberano decide quem deve viver, quem deve morrer. A morte antevista de milhares de brasileiros foi antecipada pelo poder da morte com a seguinte justificativa –  muitos morrerão, porque muitos morrem simplesmente.

Assim, para esse poder desumanizado e insano, a inteligência científica, como a liberdade de opinião, representa um estorvo à propagação do vírus que, desde sempre, quer matar a democracia.

Esse poder sempre camuflado, como na Espanha de 1936, berrou o que seria vitorioso para um longo período de trevas institucional e para as armas:

“Abaixo a inteligência, viva a morte!”