A leitura da história não é assim tão generalizada a ponto de se ter uma consciência alerta, densa e forte organizada para a defesa da democracia, por exemplo. O grunhindo ignorante a favor da ditadura por uma pequena parcela de jovens, e mesmo adultos, sem esquecermos dos esquecidos pela má-fé, corre por conta dessa indisposição ao conhecimento da realidade. Melhor, por ignorância. Tal o efeito desse estado que quando se diz que tortura faz bem e o torturador é um herói, nada acontece para tais pessoas, nem ânsia de vômito.

Agora, porém, se tornou fácil compreender o que foi a ditatura por meio da campanha da Folha de São Paulo, de vocação continuada, até as eleições de 2022, sob o título “O que foi a ditadura”, iniciada no domingo, dia 20 de junho, com manchetes que, se não despertam o interesse da leitura, ao menos, por si, já dão o mote do alerta sinistro.

 “Ditadura formou geração de militares que hoje povoam governo federal”;

 “Dissimulada, ditadura militar criou miragem de separação de Poderes”;

“Regime agigantou as empreiteiras e foi rico em escândalos financeiros”;

“Engrenagem de abusos perseguiu, matou, torturou e saiu impune”;

“Regime impregnou polícia com valores e métodos repressivos”;

“Artes e imprensa sofreram mordaça para não atrapalhar o ufanismo oficial”;

“Foi fácil entrar na ditadura, difícil foi sair”;

 “‘Milagre’ revê PIB recorde e semeou década perdida”;

“O afã de integrar Amazônia levou a desmatamento e morte de índios”.

A projeção histórica do malefício da ditadura pode ser vista na lei de segurança nacional, diploma nascido no auge da Guerra Fria, que trata o opositor político não como um adversário, mas como inimigo. Essa dicotomia invadiu sub-repticiamente o discurso político posterior do país, às vezes, com roupagens ou etiquetas ideológicas diferentes, mas rigidamente bifronte, discriminador, implícita ou explicitamente violento.

Com o Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968, no governo de Artur Costa e Silva, sobreveio o fechamento do Congresso Nacional; a cassação de mandatos parlamentares; aposentadoria compulsória de três ministros do Supremo Tribunal Federal (Hermes Lima, Victor Nunes Leal e Evandro Lins e Silva) e dois outros, que saíram porque discordaram da violência verde-oliva (Gonçalves de Oliveira e Antônio Carlos Lafayette de Andrada). Houve a cassação de professores; estudantes; prisão de pessoas críticas do regime; sobreveio a suspensão dos predicados da Magistratura e da garantia constitucional do habeas corpus; a intervenção em Estados e Municípios. O AI nº 5 gerou o êxodo dos cérebros nacionais, que foram lecionar e/ou pesquisar em outros países, indo também opositores daquele Estado policial, no qual as liberdades e garantias individuais e civis ficaram cerceadas no cenário nacional do medo e do terror, enquanto nos porões se desenvolviam as práticas de tortura e humilhação, quando não de morte, que depois diziam ter sido em confronto. A liberdade de imprensa ficou cerceada.

Em 1977, o líder do MDB, Alencar Furtado, criticando o AI nº 5, declara: “O programa do MDB defende a inviolabilidade dos direitos da pessoa humana para que não haja lares em prantos. Filhos órfãos de pais vivos – quem sabe, mortos, talvez. Órfãos do quem sabe e do talvez”.  O General Geisel o cassou.

Quem viveu ou sobreviveu tem o dever de contar, e quem nasceu depois tem a obrigação de conhecer, para que o país não repita seus erros nem como farsa e possa debruçar-se sobre si mesmo, se perguntando: o que queremos ou podemos querer de nós mesmos? Eis o início da consciência.

Apesar disso, foi nesse glorioso Brasil que se ouviu a estupidez: a ditadura ajudou a democracia. Essa é a ousadia de todos aqueles que saíram protegidos pela amplitude da anistia.