O país está assolado por muitos vírus, o pior deles é a Covid-19. Curar-se, depois de um tempo na UTI, é motivo de celebração.

Há quem não considere a sua letalidade e não se comove nem com uma morte; que dizer dessa mesma indiferença com mais de cinco mil mortes? E daí?

Daí que o valor ético-jurídico que preside a nossa sociedade deveria ser o valor da vida, com a dignidade da pessoa cercada pelo seu reconhecimento e proteção.

Se um vento diferente sopra sobre muitos países, e porque não dizer sobre o mundo, a verdade é que a tecnologia da comunicação faz trepidar as sociedades democráticas, dado que a mentira é divulgada massivamente por meio de poderosos grupos de interesses. Disseminam o ódio, que separa e desestabiliza o governo, fazendo avançar a perspectiva do declínio democrático e a instauração do autoritarismo.

Essa crise ganha dimensão extraordinária quando o ódio é estimulado por atos e palavras do governo central, criando uma situação sem precedentes. Levas e levas de pessoas são convocadas pela internet para irem às ruas, gritando palavras do ódio político, racial, institucional, do ódio contra políticos e pessoas, como se o adversário de ontem tivesse conseguido a faixa de inimigo da pátria, por pensar diferente do fascismo disfarçado.

Discurso inimaginável até há pouco tempo acontece hoje com naturalidade, quando se ouve “A Constituição sou eu” para um contraponto como esse que “está tudo sob controle, mas não se sabe de quem”.

Isso depois de se assistir que o valor ético-jurídico da vida tem seu natural confronto não só com a morte pelo vírus ou pela morte natural, mas por meio da tortura elogiada e do elogiado torturador.

A crise tem outro aspecto. O de quererem que democracia e ditadura sejam a única e mesma coisa.

Aquele que assistiu ou se lembra de um milhão de pessoas no centro de São Paulo para o grande encontro das Diretas-Já avalia o que foi a pressão e a opressão dos vinte anos de regime militar, e o alívio sentido ali na Praça da Sé. A repetição dessa convocação, em outras grandes cidades brasileiras, seguramente revela que a democracia como construção histórica pode ruir um dia, mas certamente se ergue depois, para acompanhar a luta incessante da humanidade por liberdade e justiça.

Se a longo prazo todos morrem, nosso desafio fica entre duas alternativas, a saber: ou se vive a experiência democrática, que é sempre inacabada, lutando por fazê-la avançar, cumprindo a responsabilidade individual e coletiva da construção de um futuro possível, ou se aceita, como um esqueleto sem alma, o autoritarismo dos estúpidos.

Um conflito entre a consciência cidadã e a ausência dela faz aparecer a figura de seu coveiro.