O ex-ministro Delfim Neto, em entrevista à TV Cultura, foi enfático ao afirmar que acredita que o tratado Mercosul-União Europeia será a redenção do País. Quanto à omissão do governo em apresentar medidas para o incentivo ao desenvolvimento da economia paralisada que fossem simultâneas à discussão da reforma da previdência, ele disse claramente que era uma maneira de pressão governamental, mas que com a aprovação dessa “salvadora” Reforma viriam tais e tantos investimentos que o Brasil sairá dessa apatia (uma paralisia calculada como pressão e milhões de desempregados?).

De ouro lado, Bresser Pereira (FGV/SP) adverte: “Na verdade, esse acordo é um desastre para o Brasil; é mais um passo no sentido de desindustrializar o sonho do Ocidente imperial e dos liberais dependentes brasileiros de tornar o Brasil um mero exportador de commodities, cujo PIB continuará crescendo a uma taxa anual por habitante de apenas 1% (um por cento) ao ano; ficando dessa maneira para trás não apenas dos demais países em desenvolvimento, mas também dos países ricos”. Laura Carvalho, economista e professora da Universidade de São Paulo (USP), posiciona-se nesse mesmo sentido: “O Mercosul aceitou remover tarifas em setores-chave de nossa já combalida indústria, como automóveis, autopeças, químicos e fármacos. Assim, ainda que os efeitos de curto prazo possam ser positivos para os dois blocos, os benefícios de longo prazo para o Mercosul são menos evidentes”. Assim também André Nassif, da Faculdade Getúlio Vargas (FGV/Rio), é determinado em prevenir que tais benefícios serão mais direcionados ao agronegócio, frustrando de vez a industrialização do país, cuja tendência de liquidação data do final da década de 1980. Em 1954, a antevisão de Almino Afonso já dizia: “Industrialize-te ou morre”.

Bresser Pereira cobra posição dos economistas do Conselho Nacional da Indústria, como em Ribeirão Preto poder-se-ia sugerir à Associação Comercial e Industrial que organizasse um seminário, em nome do interesse nacional.

 A rapidez da decisão europeia, após vinte anos de discussão desse acordo, e que demorará ainda mais alguns para ter sua validade prática, uma vez que depende da aprovação dos parlamentos nacionais, também pode ser analisada sob alguns aspectos. O primeiro é o da instabilidade institucional do Brasil e da Argentina, sendo que esta até pediu para que fosse apressada tal assinatura. Um e outro fragilizado, sendo que a imagem internacional do Brasil tangência o ridículo devido ao bazar das bijuterias japonesas de nióbio, divulgada diretamente do Japão pela batuta presidencial, secundada pela cocaína do sargento da comitiva preso na Espanha. E mais: para o país que ganhara protagonismo internacional, com sua política de autodeterminação e de não interferência na política de outros países, tem-se a declaração pioneira e gratuita do alinhamento aos interesses econômicos e estratégicos da política norte-americana, até com a ilustração surpreendente do ato de vestir-se roupa igual ao do astronauta daquela nação, na data comemorativa de sua independência.

Mas a expectativa de que tal acordo pode atualizar o lema da velha república, segundo o qual nosso país é “eminentemente agrícola”, sustenta seu temor na lição de Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia, para quem o acordo entre dois blocos ou países só pode dar certo quando um e outro estão no mesmo nível de produção econômica e desenvolvimento social.

 Impossível nessa etapa não se lembrar da figura histórica de Barbosa Lima Sobrinho, que viveu mais de cem anos apaixonado pela sua pátria e que frequentemente proclamava que o desenvolvimento real é o desenvolvimento autônomo, ou seja, que não dependa prioritariamente de financiamento externo. Ele chegou até a escrever um livro sobre o Japão, pois admirava naquele país exatamente isso: seu desenvolvimento autônomo.

Qual o país do mundo que ajuda o outro a ser potencia igual, para enriquecer a concorrência? Colocar o Brasil dependurado no paletó daquele que, imperativamente, coloca o interesse de seu país em primeiro plano, e não retirar dele essa lição, é o mesmo que confessar sabujice de escravo.

O Brasil tem o direito de ir além do simples sonho de um projeto de desenvolvimento nacional, que não existirá jamais sem sua industrialização.