Há mais de setenta anos, O pequeno príncipe, um livro infantil traduzido para mais de 250 idiomas, circula pelas milhões de almas generosas, encantando as crianças e deixando perplexo os adultos, que se reconhecem nele pela criança que cada um foi um dia. Era essa mesma a vontade do artista, que se realiza no tempo e no espaço, especialmente quando o sucesso pertence a sua memória, já que morto em 1944.

O autor, filho de família nobre da França, nascido em Lyon, em 1900, traz em seu comprido nome a trajetória iniciada na Idade Média, quando era comum homenagear parentes e padrinho adotando seus nomes. Ficou célebre assim como Saint-Exupéry, mas seu nome de batismo é Antoine Jean-Baptiste Marie Roger de Saint-Exupéry.

Não estava mais em condições físicas para voar, com 44 anos, quando decidiu assumir um posto na aviação militar de reconhecimento, no palco da Segunda Guerra Mundial  o que tanto o fazia sofrer, vendo sua França invadida por tanta destruição, tanta morte, em meio a Europa em conflito. Mas já tinha prestígio como homem das letras, e mesmo como piloto de avião já acumulara experiência, transpondo ou posando no deserto, atravessando mares e continentes numa época em que os aviões eram “geringonças”. Voltou à ativa pelo seu prestígio, pelos amigos influentes que sabiam de sua paixão antiga e por sua decisão em ajudar a França naquela combustão de ódio. Voltou para morrer, como piloto abatido, no dia 31 de julho de 1944, próximo aos Alpes, como se pensou durante décadas.

Em 1998, no entanto, um pescador francês próximo a Marselha, sul da França, retirou do Mediterrâneo uma pedra calcificada. O brilho dela aguçou sua curiosidade, o que o fez quebrá-la. Era um bracelete. Nele estava inscrito “Antoine de Saint-Exupery”. A verdade surgira das águas. Em 2002, um arqueólogo encontrou os destroços do P-38, que fora abatido.

A coincidência mais intrigante aconteceu depois dos destroços da morte. Um velho piloto alemão, muito idoso, teve a certeza de que fora ele que acertara o avião naquele dia. A misteriosa dor nasceu do paradoxo de ter abatido justamente o escritor que o influenciara, com seus livros, a escolher a profissão de piloto de aviação.

Saint-Exupéry, durante a sua vida, não sofreu só pane no deserto, como também lá residiu, com seu porte e espírito iluminado e conciliador, para convencer os lideres berberes a não sequestrar ou matar os pilotos que ali se acidentavam e que se dedicavam, como ele, ao correio postal.

Certamente seu tempo de permanência reflexiva e silenciosa na África penetrou na profundeza de sua alma, para que seu verbo eclodisse fácil, poético, infantil ou adulto em tantas obras presentes no nosso espírito e em nossas bibliotecas.

Esteve em muitos lugares do litoral brasileiro, entre 1929 e 1931, de Natal a Porto Alegre, deixando histórias no Rio de Janeiro, Florianópolis, Petrópolis, Santos. Foi piloto do correio postal, da empresa aérea francesa, Aeropostale, que depois seria absorvida para dar nascimento a Air France. Lá no Ceará, um pescador falava sobre a passagem do escritor por aquelas bandas, referindo-se a Saint-Exupéry como Zeperri.

A Companhia das Letras, na sua edição de 2015, tem um posfácio da pesquisadora Mônica Cristina Correa. Uma preciosidade, especialmente quando um dia Exupéry marcou nossa juventude, com seu ensinamento misterioso: “o essencial é invisível”.

 

Publicado em: A cidade ON. Ribeirão Preto. 3 mar. 2019.