Essa história não pode ser usada contra as necessárias políticas de proteção social aos desvalidos só porque ela é a afirmação individual de um talento nascido no seio de família pobre.

Uma vez, Fernando Sabino, cujo nome propositadamente reverencia o escritor, era garoto de escola pública do bairro da Vila Virginia, em Ribeirão Preto, quando assistiu pela primeira vez à exibição do balé clássico do casal Marisol Gallo e Elydio Antonelli. Meio seduzido, meio perplexo, logo disse à sua diretora: “Quero aprender isso”.

Não demorou e Elydio leva-o à Escola de Dança da Renata Celidonio. Ela o inicia no espaço reservado ao jazz e, tempo depois, pergunta-lhe se suportaria a roupa colada ao corpo e as delicadas sapatilhas do balé. Naturalmente que sim.

Iniciou, indo de bicicletinha, ao balé. Fazia-o às escondidas dos amigos, porque o preconceito era grande e a gozação maior. O mistério foi revelado quando o treinador de futebol, criticando o time no vestiário pela falta de folego, só elogiou o  bom de bola que era o Fernando, porque ele fazia balé. Balé? Foi o espanto. Sim, balé.

Não durou muito a ameaça materna. Ele não poderia continuar porque precisava trabalhar e ajudar nas despesas da casa.

Renata Celidonio conseguiu a doação de duas cestas básicas mensais. E o garoto continuou a progressão de seu talento na dança. Era impressionante a sua evolução, que o colocava no sítio do muito diferente.

Até que veio o concurso patrocinado pela ProDanza de Cuba, que se realiza em São Paulo, e ele foi vencedor, como vencedor em tantos outros. Mas o prêmio desse concurso rendeu-lhe um estágio em Cuba. Se as aulas eram financiadas pelo governo daquele país, a passagem e a estadia foram regadas pelo dinheiro arrecadado pelo “passa-chapéu” da professora Renata, para o qual contribuíam parentes e amigos. Era por seis meses, esticou para doze.

Por que Cuba? Lá o balé clássico, e para homens, se desenvolveu com a chegada de artistas russos, que implantaram a escola. Sua disciplina é tão grande quanto à sua honestidade pessoal que o impediu de marcar casamento antes de obter o visto de permanência no país. Insuportável a suspeita da família dela de que o ato era simplesmente para fixá-lo no país. Seria burla à lei, seria uma afetação de amor.

Foi para os Estados Unidos e fez curso intensivo de verão no Juilliard School de Nova York. Antes de alcançar o estrelato, no corpo de baile do Richmond Ballet, na Virginia, como um dos primeiros dançarinos e coreografo, fazia jardinagem, fazia transporte de encomendas, ficava na bilheteria. Não perdia tempo, como se respondesse, no dia a dia, a certeza verbalizada desde cedo: “Não dançarei a vida toda”.

Fernando Sabino, que tem como sobrenome paterno o “de Jesus”, Fernando Sabino de Jesus, casou-se nos Estados Unidos no dia 24 de junho. A mãe, depois de anos, conseguiu o visto de entrada e irá com o outro filho para a cerimonia civil, lá mesmo, na cidade de Richmond. A cerimônia religiosa ocorreu em Ribeirão Preto, no dia 7 de julho.

A professora Renata Celidonio esteve presente, como convidada de honra.

O texto é carente da figura paterna porque o pai separado da mãe ficou distante em outra cidade e, inveterado machista, criticava a vocação do filho. Só depois, vendo-o no palco, aplaudido e vitorioso, aceitou o seu sucesso com sapatilha e tudo.

Pela internet, a arte do bailarino da Vila Virginia já se comunica com o mundo.