Esteve na Feira do Livro e Leitura João Vicente, filho do ex-presidente Jango Goulart, nascido João Belchior Marques Goulart, que foi deposto pelo golpe civil-militar de 1º de abril 1964, quando uma pesquisa de opinião pública da época recentemente revelada conferia a ele o apreço e a legitimidade de mais de 60% da população brasileira.

A presença do filho nessa jornada de redescoberta política do pai, ainda tentando provar que ele morreu de morte matada, como exilado político, pode ser colocada no campo fértil do revisionismo histórico, que confere ao ex-presidente sua importância e respeito na cena política do Brasil como sucessor escolhido da herança social e política de Getúlio Vargas.

Jango teve o mais criativo e o mais competente ministério no provisório governo parlamentarista que foi adotado para que ele pudesse tomar posse como presidente após a renúncia de Jânio Quadros, a qual se seguiu o veto dos três ministros militares ao vice eleito diretamente.

Dentre os participantes daquela constelação ministerial formada no regime parlamentarista, estava Celso Furtado, que formulava com originalidade o subdesenvolvimento brasileiro, e era responsável pelo Plano Trienal, que objetivava a recuperação da economia do país. Esse plano foi contrariado pelos Estados Unidos e até pelas forças de sustentação político-parlamentares do governo. O retorno ao sistema presidencialista aconteceu por força do plebiscito realizado.

Essa oposição ao plano foi, na verdade, o anúncio do continuado cerco interno de forças populares, sempre querendo e indo além, e das forças não populares agregadas aos interesses econômicos, estratégicos e ideológicos norte-americanos, que acabaram por colocar o presidente em um isolamento político, sepultando as chamadas “reformas de bases” e a lei de remessa de lucros, que ousaria auditar as contas das multinacionais, até hoje sãs e salvas. Sua presença na assembleia dos marinheiros, inflada pelo agente provocador cabo Anselmo, da agência de inteligência norte-americana, deu o toque final à quebra da hierarquia militar, que foi fatal.

O discurso radicalizado (“reforma agrária na lei ou na marra”) era ameaçador e alimentou o golpe que sombreou, quando não ensanguentou, o país por vinte anos.

Na preparação dessa quebra violenta da ordem institucional, múltiplos foram os atores. Merecem referência dois núcleos formados juridicamente. Um deles é o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), cuja finalidade era preparar a ingovernabilidade do país elegendo deputados federais. Com dinheiro estrangeiro e de empresários nacionais, esse instituto pagou as despesas eleitorais de 300 deputados, elegendo 160. O IBAD foi objeto de investigação, por meio de comissão parlamentar de inquérito, presidida sucessivamente por Rubem Paiva e Ulysses Guimarães, e acabou por ser fechado pela justiça. O outro núcleo da preparação do golpe foi o Instituto de Pesquisas Sociais (IPES). Ambos foram de fato regidos pelo então coronel Golbery do Couto e Silva, que capturou as agências de comunicação de massa, enviando material preparado por especialistas, que potencializavam o terror do perigo comunista e a metátese da corrupção.

Com essa orquestração interna e internacional, hoje documentalmente comprovada, a figura de Jango, cuja vocação era marcadamente conciliadora, cresce. Ele não quer derramamento de sangue com eventual guerra civil. E aparece vencida a liderança hábil, conciliadora, progressista e democrática que as classes conservadoras tinham como suspeita, desde quando ele fora ministro do Trabalho em 1963 e abriu as portas do Ministério aos trabalhadores. Que escândalo! Trabalhadores no Ministério do Trabalho. Sua demissão foi depois de ter conseguido dobrar em 100% o valor do salário mínimo. Para a ideia conservadora, salário era fator de inflação.

A força e a fúria do período autoritário ou da ditadura não encontraram vestígio de corrupção na vida e no patrimônio do presidente Jango Goulart, que desde moço, quando se aproximou de Getúlio, já era um estancieiro bem-sucedido.

O filho João Vicente não falou da exumação do cadáver do pai, que comentara antes, quando perguntado face a face. Ele respondeu que encontraram substância estranha, mas em quantidade tão pequena, mínima, que impede um laudo conclusivo. As respostas pedidas aos Estados Unidos não vieram, e a Procuradoria-Geral da República, se dá importância à pesquisa do que realmente aconteceu, não insiste nas respostas como deveria.

A morte ocorreu, no dia 6 de dezembro de 1976, no município argentino de Mercedes, Corrientes, por ataque cardíaco, na versão oficial, e por envenenamento por agentes da Operação Condor, na versão iniciada pelo depoimento de integrante do serviço de inteligência uruguaio. Imediatamente, a ordem da ditadura era para que os veículos que acompanhassem o corpo do presidente falecido, rumo à cidade de São Borja, no Rio Grande do Sul, não parassem em lugar nenhum.

Eles pararam, a fila era crescente e ela seguiu, seguiu até o túmulo, que não encerra o movimento da história, que tem ânsia de verdade.