A intervenção federal no Rio de Janeiro foi ventilada como golpe de mestre, em face da pauta política esvaziada do governo. Ela precisava ter antecipada audiência do Conselho da República, que nos últimos anos nunca fora consultado nem formalmente constituído, pois os seis membros da sociedade civil, sendo dois nomeados pelo presidente da República, dois eleitos pelo Senado Federal e dois pela Câmara dos Deputados, depois de um mês, ainda não integram o colegiado.

E, quando foi convocado previamente esse Conselho da República sem a sociedade civil representada, os que lá estavam, como ocupantes de cargos no Governo Federal, se tiveram a inquietação de cobrar, ouviram que não havia planejamento nem dinheiro para tal operação. Será que disseram ser desnecessário o planejamento e o dinheiro só porque era um golpe de mestre? Não é possível, ou no Brasil de hoje tudo é possível?…

E, se houvesse planejamento, seguramente o que se faria no Rio de Janeiro necessariamente teria que ser feito no Ceará, que tem tido o dobro da matança, pois sua situação geográfica já atraiu o capital traficante para distribuir a mercadoria para várias partes do mundo.

Porém, os militares que estavam na reunião divergiram. A divergência está ganhando prestígio, pois o tempo está provando que nossas Forças Armadas não poderiam entrar nessa espécie de camisa de força, já que seu treinamento não pode ser utilizado na “guerra civil” do Rio de Janeiro, pois ela é uma guerra destinada ao confronto com a Polícia Militar.

Não é nem a primeira vez que o Exército tem a experiência de estar no Rio de Janeiro. Essa experiência, por si só, deveria alertar que era preciso um plano de ocupação maior baseado na inteligência, que existe.

Mas o nosso Exército fica com a simbologia da força, transitando pelas ruas e favelas, perturbando a comunidade, e quiçá os traficantes. O incômodo nos negócios de traficantes, gerado pela ação obrigatoriamente limitada dos militares, estimula desafios para mostrar que ação deles é insuficiente para que eles, traficantes, deixem de ser o que são. Então há desafio. Então, há mortes, que não param. Como essa morte provocativa da vereadora Marielle Franco.

Se as mortes da Síria, se as outras mortes do Rio de Janeiro e tantas outras nos outros estados brasileiros geram uma indignação silenciosa, essa serviu, com suas balas federais, assim de combustão às manifestações das ruas e cidades brasileiras, e mesmo de tantas outras regiões do mundo.

Se seus matadores quiseram calar a mulher ativista, porque denunciava toda forma de violência, particularmente a da Polícia Militar, esse golpe de mestre sairá pela culatra, porque ela não era só uma ativista dos direitos humanos, ela levava consigo esse impulso que conduz a pessoa ao patamar do símbolo, do exemplo irradiador, da porta-bandeira na passarela da liberdade, em que o sangue derramado converte-se em semente. Ou será que ela foi morta porque era negra e negra atrevida em falar dos bandoleiros do Estado? Se por isso, a sociedade brasileira respondeu com o mesmo sentimento com o qual aplaudiu a escola de samba, que fez chacota de políticos, denunciou a casa-grande e a senzala do Brasil real de hoje. No entanto, há uma diferença, já que a dimensão da tragédia reuniu todas as vertentes da realidade concreta e da realidade invisível e imponderável, para simultaneamente fazer de sua morte a representante oficial, para o mundo, de todas as vozes, contra as mortes matadas e contra todas as formas de violências, sejam elas contra homens, mulheres, crianças e jovens.

A consequência dessa tragédia sugere à imprensa massificadora e televisiva para ela divulgar a necessária união da esquerda e da direita para defesa da segurança pública. Tão só? Se para isso, nem só por isso.

O Brasil, mais do que esquerda-direita, precisa se unir, sim, para definir sua identidade, para reencontrar seu espírito de nação, começar a planejar seu presente para o futuro, ter um projeto econômico que o recoloque na globalização, com a dignidade que é nossa. Afinal, sem dinheiro não há segurança pública, saúde, educação e cultura, em um país cujo solo é rico, cujo subsolo é rico, cuja natureza é rica, mas é um país desigual e injusto.

Se não tivermos a racionalidade de um planejamento, animam-se candidatos à presidência da República para ficarem repetindo, como mantra da alienação, que a privatização vai continuar, enquanto o governo federal manda ministro garantir aos investidores internacionais que a compra e venda vai continuar no país da bagatela.

O irônico nessa tragédia é que as balas que mataram Marielle são balas oficialmente federais, mas roubadas, diz-se.

Assim, o golpe de mestre vai saindo pela culatra devagarinho.