Na parede do saguão, defronte das portas de entrada da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, fez-se uma concavidade ampla para colocar aquela estátua comprida, com o braço direito estendido, para relembrar a posteridade de que pelo chão de pedras da bendita escola passou o semeador inigualável, José Bonifácio de Andrade e Silva, o Moço, como mestre das arcadas e seu hóspede perpétuo.

A vocação da grandeza intelectual, quando se tem ao menos duas pontas da relação familiar, um neto, de um lado, e, do outro, um avô, ambos dedicados à superação econômica, social e política da sociedade e do país em que viveram, revela o DNA incomum, que a ciência reconhece como o dom, a graça e o direito natural do ser humano, chamando-a simplesmente de Liberdade.

Se o avô, José Bonifácio, o Velho, foi o patriarca da Independência, o neto, José Bonifácio, o Moço, foi o príncipe da oratória e da abolição, com uma virtude santa, já que, como político, desejava ser o intérprete de todos os problemas nacionais, tanto na campanha abolicionista como na oposição liberal e como na Guerra do Paraguai.

A plêiade de discípulos que o admirava contava com os que seriam, depois, as expressões de nossa intelectualidade e de nossa política, pilares da construção da nossa ordem jurídica, reformadores da configuração ética, liberal e revolucionária, cantadores de um novo país ou de um novo mundo, como Rui Barbosa, Castro Alves, Afonso Pena, Salvador Mendonça e Joaquim Nabuco.

Nasceu na França, em Bordéus, no dia 8 de novembro de 1827, quando do exílio familiar, falecendo em São Paulo, no dia 26 de outubro de 1886, aos 59 anos.

Sua saúde não lhe permitiu concluir o curso secundário na Escola Militar (1842-1845), e seu período universitário, na Faculdade de Direito, findou-se em 1853. Em seguida, lecionou como professor substituto, na Faculdade de Direito do Recife (1854-1858), para voltar a São Paulo, e para a faculdade que o consagrou como catedrático.

A vida pública, como político, assistiu ao exercício de mesma paixão condoreira nos seus discursos à moda de Tobias Barreto e Pedro Luís, e como poeta. Alguns o colocaram entre os “menores”, apesar do respeito que o envolvia. Era celebrante do romantismo extremado, tal como Álvares de Azevedo, Bernardo Guimarães e Aureliano Lessa.

Foi deputado provincial (1860) e geral por duas legislaturas (1861-1868), ministro da Marinha (1862) e do Império (1864) no Ministério Zacarias. Sua luta incluía a descentralização administrativa, tal como o ideário da burguesia, cuja gramática do tempo, da moda e da época, na linguagem parlamentar, representava a “soberania popular”. Foi eleito senador em 1879, integrando a campanha abolicionista, não aceitando o convite de dom Pedro II para presidir o Conselho, em 1883.

Sua morte foi súbita. Joaquim Nabuco chamou-lhe “a mais nobre, a mais pura, a mais alta individualidade do nosso país”. “E Rui Barbosa exaltou-o como guia supremo da última geração, situando-o na esfera política e da oratória, onde a história o colocou: não entre os autênticos poetas, mas entre os homens de pensamento e de ação”. É como o celebra a síntese de sua biografia da Academia Brasileira de Letras.

Para não ficar só na exaltação do justo mérito nem restrito ao limite de uma história sempre inacabada, já que José Bonifácio, o Moço, desejou ser a voz de todos os problemas nacionais, é necessário apontar que a grande luta pela abolição da escravatura não conseguiu a formulação de políticas públicas de absorção da mão de obra libertada, num sistema da produção e do consumo, e muito menos no sistema da criação e da cultura, favorecendo a interpretação segundo a qual nossos males decorrem do fato de o Brasil ter sido descoberto e colonizado por portugueses, sendo que Portugal praticamente não tinha, senão pontualmente, escravos. Na verdade, tal interpretação contribuiu para encobrir a projeção da força imperativa da escravidão na história e na vida do Brasil, pois os seus três séculos marcam nossas desigualdades, instituições e nossa cultura. É dessa raiz que nasce a vocação de rapinagem de nossas oligarquias, na análise do sociólogo e professor de ciência política Jessé Souza. E para esse atraso na assunção dessa verdade histórica, a queima dos documentos sobre essa sinistra época de exploração, determinada por Rui Barbosa, fica como símbolo da impostura, ainda que se dê a justificativa de que a sua intenção imediata era a destruição de provas para tornar impossíveis eventuais ações de indenizações exigidas pelos escravocratas, pois, para eles, com a Lei Áurea, de 13 de maio de 1888, a “mercadoria” fora como que “roubada” do seu patrimônio quando se expressamente proibiu indenização pela libertação decretada.

Este artigo destinou-se à publicação do Informativo da Associação dos Antigo Alunos da FDUSP de novembro de 2017.