Recentemente, o mercado editorial recebeu um precioso livro, a fotobiografia de um brasileiro, Oswaldo Aranha, escrita por seu neto, Pedro Corrêa do Lago.

Textos curtos e entrevistas com mais de quinhentas pessoas, brasileiras e estrangeiras, revelam a figura humana, o combatente vigoroso das quatro revoluções existentes entre 1923 e 1926 no Rio Grande do Sul; o arquiteto e articulador insuperável da Revolução de 1930, que não teria existido sem ele, como é unanime na opinião de testemunhos e historiadores.

Ocupou durante trinta anos, até 1960, o cenário público, sendo ministro da Justiça, ministro da Fazenda e das Relações Exteriores, além de embaixador do Brasil nos Estados Unidos e nas Nações Unidas, presidiu a II Assembleia Geral da ONU, para a questão palestina, em 1948.

A dívida externa brasileira foi reduzida em 50% quando presidiu a comissão que procedeu à auditoria da dívida, em 1931, sendo que esse precedente ético, político e financeiro não imperou como exemplo face à frustração até da regra constitucional de 1988, que obriga a auditoria da dívida.

Sua posição foi determinante para definir a posição do Brasil ao lado dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. E sua figura, como embaixador lá nos Estados Unidos, ganhou destaque incomum, inclusive na imprensa daquele país, que ele conheceu tão bem, visitando todo seu interior.

Como presidente da II Assembleia das Nações Unidas, seu papel foi determinante na criação dos Estados de Israel e do árabe, na Palestina, sendo que a frustração deste deveu-se à oposição à partilha da região. Tal oposição chegou à guerra, mas, com a crescente e permanente hostilidade entre judeus e palestinos, muitos, inclusive Edgar Morin, o filosofo francês, no seu livro Mundo Moderno e a Questão Judaica, fazem contundente verberação da política israelense, e para quem “Apenas a consciência de nossa humanidade comum poderia quebrar esse círculo virtuoso e instalar uma política civilizatória, virtuosa e planetária”.

Oswaldo Aranha agiu, no entanto, como se a partilha fosse a melhor e a mais justa solução. Na verdade, pairava, no ar e na consciência dos países ocidentais, um complexo de culpa, pois poderiam ter evitado o Holocausto se, na reunião de 1934, na cidade francesa de Evian, tivessem aumentado a cota de imigração, recebendo os judeus que já eram vitimas da perseguição nazista.

Um elo de amizade histórica entre ele e Getúlio Vargas é digno de registro, pois ele sempre foi o único que poderia suceder a Getúlio, e este, toda vez que Aranha, no exercício de um cargo, ampliava seu prestigio, sempre o deslocava para outro lugar, quando não para outro país. Mas, a sequência dessa atitude sutil não fez romper a amizade entre eles.

Impressionante a foto de Aranha fazendo o discurso de despedida do presidente Getúlio Vargas, em 1954, lá cemitério que o acolheu, na sua cidade de São Borja.

Aranha faleceu, de repente, no dia 27 de janeiro 1960, quando o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) insistia para que ele aceitasse a candidatura à vice-presidente da república.

Seu exemplo é uma das provas de que não podermos desistir da construção democrática no Brasil.