Hitler atualmente não se decepcionaria com a sua linhagem. Felizmente, ele se suicidou, seguindo seu próprio conselho de papa do ódio.

O esperma de Hitler, que se fez e que se faz vírus nas criaturas, ronda a construção democrática para destruí-la, sempre invocando a corrupção, quando não o comunismo, para liquidá-la. É preciso uma ideia-força. Lá o judeu era a encarnação do perigo mundial.

Essa ideia-força é trabalhada com obsessão, que massificada abastece o discurso do ódio, sendo que sua raiz está no vagar da construção civilizatória, na ciclotimia do capitalismo, e vai gerando sua obra. A oposição é feita em nome da dignidade da pessoa humana, valor ético-jurídico que está acima dos limites territoriais de um Estado. Desvios e malfeitos durante essa construção devem ser punidos, sim, por instituições e servidores, mas que estes não se utilizem da impunidade estatal para se dedicarem à humilhação de quem acusam.

O Brasil e a América Latina viram esse ataque do vírus hitlerista com o Chile, Paraguai, Uruguai e Argentina, formando até a operação Condor, para o desaparecimento dos dissidentes políticos. A maré da história teve tempo de pegar o general Pinochet, que morreu condenado pelos crimes de tortura e desaparecimentos de pessoas, mas em prisão domiciliar.

Essa história do esperma era revelada pela imaginação do procurador do Estado, já falecido, Rubem Aloisio Moreira, poeta, sensível como os melhores. Uma espécie de vaga-lume, que gostava da noite, e que ora por vez iluminava a madrugada com a declamação de seus contos ou de suas ironias.

Numa delas, ele dizia que Adolf Hitler subira no mais alto da montanha e praticara um ato censurável de atentado violento ao pudor mundial, oferecendo à força dos ventos milhares de espermas, para que sua herança fosse perpetuada.

Assim, seus filhotes nasceriam nos confins da Terra, encarnando-se com roupa de caboclo, pobre, autoridade togada ou concursada, rico, jovem, velho, negro, branco, pardo, asiático, civil ou militar, general ou não general.

Hoje, mulher jovem fala nas redes sociais pedindo que os militares voltem, que o povo os chame. Triste é ignorar os livros de história, os documentários, os depoimentos. Triste é não saber que a democracia é uma criação sem fim, exigente de trabalho continuado. Triste é apresentar, como original, o que é velho, tal como essa onda moralista, que teve antes a vassoura do messias Jânio, que teve o messias Collor antes, que teve campanha pela “Ética na Politica” antes, que teve a morte de Getúlio, que teve o golpe contra Jango (pesquisa contemporânea ao golpe, só revelada recentemente, mostrava a aprovação popular do seu governo).

A Constituição de 1988 foi erguida sob a consciência de que a institucionalidade da ditadura, com suas variantes de cores, desde 1964, deveria ser revogada. Os magistrados de hoje merecem, sim, respeito, desde que se contenha a vaidade e a impulsão do ativismo judicial, que acaba conflitando com os Poderes da República. Desde que a prova seja prova provada, sem o disfarce de sua obtenção por prisões temporárias sem fim.

A normalidade democrática não deve transigir com o malfeito do malfeitor, mas quem o combate não pode se igualar a ele em nome da lei. A maternidade ideológica do horror traz a pergunta, que serve de alerta aos togados e não togados Que teríamos feito sem os juristas alemães?”, pergunta Adolf Hitler na frase que encima o artigo sob o título “Vamos comemorar um tribunal que julga de acordo com a opinião pública”, de Rubens Casara, juiz de direito e professor universitário, no importante livro Brasil em fúria, escrito com outros não menos brilhantes que ele.

Também o esperma de Hitler, que se fez e que se faz vírus na criatura, estimula o espetáculo, a exibição, o palco, o desrespeito estonteante à dignidade da pessoa em nome do moralismo, cuja onda “[…] já respondeu por nomes como macarthismo, inquisição ou fascismo […] Quem é contra pode ganhar no peito uma estrela de Davi, como as que distinguiam judeus sob o nazismo” (“Vigaristas do bem”, Marcio Chaer, Folha de S.Paulo, 2 out. 2017).

No Brasil, esse moralismo espetaculoso paralisou a economia, um sucesso do esperma de Hitler, que se fez e que se faz vírus na criatura, e que pode se ancorar na lição do mestre do horror, porque, desde 1923, “lançou mão de uma tática que consistia em usar alternativamente a propaganda e a ameaça”. Talvez seja por isso que “ninguém quer tirar fotografia com o Brasil”, como disse recentemente o diplomata Ricupero.

Para os contaminados por esse vírus, decorrente da distribuição gratuita do esperma de Adolf Hitler, há uma lição horrenda, lapidarmente ministrada por ele. Ele disse, no auge da Segunda Guerra, à luz da sua máquina de destruição fugazmente vitoriosa: “Estou com a consciência tranquila”. E, na sua pedagogia patológica, expôs o grau de sua maldade: “Um ser bebe o sangue de outro. Enquanto um morre, o outro se alimenta”, “É preciso não ficar por ai dizendo tolice, falando de humanidade” (Joachim Fest, Hitler, 2017).

Hitler atualmente não se decepcionaria com a sua linhagem. Felizmente, ele se suicidou, seguindo seu próprio conselho de papa do ódio.