A pessoa proprietária de um imóvel, pequeno ou grande, que queira, hoje, dele dispor, conseguirá, sim, vendê-lo, mas não facilmente, e desde que, ainda, seu preço seja uma verdadeira bagatela.

Eis um quadro de crise, que fez do mercado imobiliário, como faz do mercado em geral, um campo de possibilidade menor, muito menor, seja de compra ou de venda.

No entanto, o governo brasileiro, que não conseguiu a legitimidade que nunca conseguiria, pois nasceu do sequestro da soberania popular, resolveu, como faz às pressas, vender ativos que possam cobrir o déficit público, porque a projeção para o próximo ano é que o déficit será maior.

A solução governamental, sem originalidade, é vender, como faz o particular, para cobrir suas dividas.

Porém, o governo quer não só privatizar a Eletrobras como também pretende “aproveitar a oportunidade para desfazer-se de suas ‘golden shares’ – ações de classe especial que são retidas pela União e que lhe garantem, entre outras coisas, poder de veto para algumas decisões, importantes nas empresas vendidas à iniciativa privada” (“Governo quer fim de ‘golden share’“, Murillo Camarotto, Valor, 6 set. 2017).

No entanto, o governo não se rege pelas leis das relações pessoais, débito e crédito, garantindo-se este pelo patrimônio particular daquele.

Afinal, há o interesse nacional que encobre milhões de pessoas num imenso território que não se empapou de sangue para acoplar sua diversidade cultural e econômica.

O governo do Brasil representa esse imenso país, com suas riquezas do solo e do subsolo, com seu meio ambiente, com suas florestas, com suas águas, com suas fronteiras, e com uma população generosa e sofrida, esperançosa, não se sabe até quando, apesar de saber-se enganada.

Esse Brasil não constitui oferta de bagatela para corretores oficiais e não oficiais, como querem fazer com a Eletrobras, um patrimônio que durou cinquenta anos para ser formado.

O pretexto mentiroso para essa venda é que haverá tarifas menores com a privatização. Outro pretexto é que a influência política na gestão da empresa seria afastada.

O apressado governo do Brasil não discute com a população o que ela pensa do patrimônio que formou, não discute se a Eletrobras integra o arcabouço da segurança nacional, se as companhias aéreas nacionais podem ter 100% do capital societário. Não discute.

Sabe-se somente que o governo nacional, que não tem o domínio de sua economia, governo não é.

Essa ameaça de entrega geral do Brasil no mercado aberto da ganância nacional ou estrangeira faz com que nos preocupemos com o próximo déficit, com essa mentalidade alienada do interesse nacional, que talvez continue a arrumar a desculpa da corrupção para vender, de vez, o que seria um foco de corrupção, as empresas estatais e paraestatais, ao invés de estudar e propor o monitoramento e a fiscalização de quem se dispõe a gerir uma empresa estatal ou paraestatal, evitando a indicação de “parceiros” para ocupar só cargos ligados às licitações.

Combate-se a corrupção não com os heróis de plantão, mas com a liberdade de expressão e de crítica, num regime democrático e participativo, marcado pela transparência dos atos, contratos e convênios públicos, e ainda acompanhando a execução orçamentária de cada exercício.

A atuação, para definir uma política de redenção nacional como se fosse objeto de um bazar de esquina, é simplista e medíocre, como toda atuação incompetente, já que, sob o pretexto de destruir a doença, mata-se o doente.

Na primeira grande privatização do Brasil, dizia-se que era para pagar a dívida pública, e esse negócio da China foi facilitado como se os compradores tivessem fazendo o favor de assumir o patrimônio público.

A quinta-coluna nacional evoluiu. Ela está no governo, anunciando antes para os mercadores estrangeiros o que o povo brasileiro só fica sabendo meses e meses depois.