Quando o ministro Herman Benjamin, relator do histórico processo da cassação da chapa presidencial de 2014, pronunciou a frase “como juiz, recuso o papel de coveiro de provas vivas. Posso até ir ao velório, mas não carrego o caixão”, estavam carimbados os votos vencedores da absolvição decretada por 4 x 3 do Tribunal Superior Eleitoral.

A rigor, seu longo voto, denso, minucioso, lógico e jurídico, hábil em se referir à diretiva seguida, que outra não foi senão a do voto anterior do próprio presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Gilmar Mendes, que desempatou a votação, contrariando o que votara para a reabertura do próprio processo, foi se configurando como uma prensa intolerável para quem já tinha seu voto decidido, e não declarado, antes de saber do voto do relator.

A importância histórica desse processo relatado por Herman Benjamim é que sua leitura prolongada foi impondo aos votos não declarados uma espécie de “mania de perseguição”, pois estavam se achando “pressionados”, “constrangidos” pela exposição inteligente e hábil do ministro relator, sem perceberem que se expunham como centralidade de interesses subalternos, que se incomodava com o dever da imparcialidade.

Aliás, se houvesse cobrança de direitos autorais pelo uso da carapuça, Herman Benjamim ainda teria faturado algum, porque um deles não se aguentou nas calças e perguntou para o país ouvi-lo: “O senhor está me pressionando?”.

Um final triste para uma Justiça singular, apequenada sob o pretexto invocado da sacralidade da soberania popular, como se ela gostasse de ser enganada, mas só por muito dinheiro.

O positivo foi a revelação de que, apesar do abuso com que tantos magistrados e procuradores e policiais têm infernizado na dança infernal dos egos a coerência interna do sistema jurídico do país, a esperança não pode ser perdida, pois há quem se recuse a ser coveiro da credibilidade de nossas instituições democráticas.

Se a Justiça entrou na cova, ela saiu depois de três dias e três noites, flutuando no voto de Herman Benjamim, e carregando a frase de Bertold Brecht – “Alguns juízes são absolutamente incorruptíveis. Ninguém consegue induzi-los a fazer justiça”.