A morte é simples assim, às vezes. “Morreu dormindo”, diz a voz comovida ao telefone, lá do outro lado. Era o filho com a derradeira notícia do Antonio Calixto. Ele morreu.

E a sua Altinópolis, da trepidação política e de seu refúgio familiar, ela o atraia sempre e com frequência, e finalmente naquele dia o recebeu pela última e definitiva vez. Foi enterrado ali, com o acompanhamento de parentes, amigos, conterrâneos.

Quando se perde assim o horizonte da pessoa, volta-se naturalmente para trás, no garimpo da marca digital de quem foi e era, pois a vida é uma construção fácil de se encontrar nela os sinais da passagem. Muita vez o caminho é parceiro, outra vez é distanciado de outro, ou do seu. Mas, a convergência de um e outro é irresistível quando há amizade, esse altar de bem querer diante do qual tantas vezes as pessoas nem sabem o porquê desse singelo vínculo. São amigos, pronto! Não importa uma ou outra divergência.

Do Calixto político, vereador, deputado estadual e vice-prefeito, fica do trato pessoal à palavra elegante, sempre respeitosa, até na discordância. Da política emerge a figura da coerência na preocupação de olhar o mais pobre, que a advocacia sindical abasteceu de conteúdo.

Ele sempre esteve ao lado ou à frente de boas causas, lugar em que guardou coerência nessa simplicidade de ser coerente. Assim na vida familiar, assim na vida social, assim na vida política-partidária.

Ultimamente, víamo-nos pouco. Em cada tentativa de trazê-lo para o almoço, ele disfarçava a recusa, como se não quisesse ofender, agradecia muito, desnecessariamente, como se não estivesse bem de saúde, querendo ficar mais no seu canto, com sua Sonia, a mulher de ternura e do companheirismo de sua vida, com seu filho, nora e netos.

A morte, que é irmã siamesa do nunca mais, oferece a sensação de que a pessoa, quando morre, vai para frente, como se invadisse o infinito, de vez. E cada um que fica pensa no dia da sua invasão.

O Calixto é uma lembrança de simpatia, de amizade.

É bom lembrar-se dele.