O Prêmio Camões, que homenageia escritor escolhido da língua portuguesa, é fruto da iniciativa bilateral e conjunta do Estado do Brasil e do Estado de Portugal. Neste ano o escolhido foi o escritor brasileiro Raduan Nassar. A solenidade de entrega teve a estranha inversão da pauta, em razão da qual o escolhido, que sempre discursa por último, dessa vez falou em primeiro lugar.

Essa inversão seguramente contava com a coragem moral de Raduan Nassar, que já se pronunciara muito antes contra o governo instalado, dizendo: “sem vínculo com qualquer partido político, assisto com tristeza a todo o artificioso esquema de linchamento a que Lula vem sendo exposto, depois de ter conduzido o mais amplo processo de inclusão social que o Brasil conheceu em toda a sua história” (Folha de S.Paulo, 21 ago. 2016).

Raduan Nassar, com 82 anos de idade, apresenta força de expressão literária como um dos maiores da literatura nacional e uma coragem ética pouco comum nos literatos, que seriam não engajados.

Falou, em seu breve e curto discurso, o que um homem livre fala quando acha que deve. E ele achou de dizer “vivemos tempos sombrios”, e abrevia o relato da truculência presidida por Alexandre de Moraes, indicando as contradições de atos e fatos recentes, para concluir, que, após o afastamento de Dilma Rousseff “O golpe estava consumado”. “Não há como ficar calado”.

O ministro da cultura, Roberto Freire, achou de atacá-lo, porque “quem fala o que quer, acaba ouvindo o que não quer”, e mais ainda, como a vaia da plateia foi grande, passou a dizê-la que era toda petista. Absurdamente disse ainda que o homenageado não deveria receber o prêmio.

Devolver o prêmio é um despropósito, como toda ordem pervertida. O prêmio de literatura é resultado direto do exercício da liberdade da criação, da originalidade criadora da inteligência, que sempre incomodou autoritários ou ditadores.

Um ideólogo marxista, incluído paradoxalmente na ideologia partidária do Estado mínimo, que sabe que durante a ditadura qualquer opositor era tido como comunista, não pode soltar a língua descompromissada para etiquetar seus críticos assim por atacado, genericamente, satanizando-os com o designativo de um partido nacional, que tem sofrido tentativas reiteradas de sua destruição, como se fosse o único responsável pelo que acontece na história do país.

É absolutamente improvável que a turma da vaia destinada ao ministro tenha se reunido para essa manifestação. A intelectualidade, em sua grande maioria, foi a primeira a ficar ou neutra ou contra, na turbulência política que acometeu o Partido dos Trabalhadores, que ainda não conseguiu êxito em reunificá-la. Afinal, não tem sentido uma plateia só de petistas, ou só de pemedebistas ou só de social-democratas, sem que o homenageado seja da mesma hoste partidária, salvo quando a personalidade flutua acima dos limites partidários e seja um grande humanista.

Agora, a fala do ministro contra o intelectual é de um despropósito único, já que até ele disse que “não deveria receber o premio”. Aqui, há o chamado “viés Lava-Jato”, no qual o problema é dinheiro desviado. Só que o dinheiro ganho pelo escritor não foi fruto de uma trama indecente, de um desvio ilegal, de uma propina tão a gosto de tantos políticos, não, não.

O escritor foi escolhido por seu mérito literário do qual não se desvincula sua ética e sua coragem moral, seu compromisso enraizado com o país democrático. O dinheiro não saiu do bolso generoso de nenhum ministro. O dinheiro é do Estado brasileiro e do Estado português, dentro dos quais servidores públicos são executores, discretos, eficientes e honestos, de sua decisão. Contudo, o ministro não usou de sua longuíssima experiência política para distinguir Estado e governo.

Não bastasse isso, em relação ao prêmio, o ministro agressivo e destemperado não poderia ignorar a expressão do homem escritor, humanista surpreendente, para a qual bens materiais tem significado social absoluto. Tanto assim que, em 2011, doou à Universidade Federal de São Carlos o imóvel rural denominado Lagoa do Sino, no qual centrara suas atividades nos últimos trinta anos. A única obrigação da universidade é a de instalar, naquela fazenda de 220 alqueires, avaliada à época em onze milhões de reais, um campus universitário. E, o ministro da Cultura, se ignorava essa dimensão do homenageado, não poderia saber que antes, muito antes, em 2004, ele loteou uma área que possuía em Campina de Monte Alegre, repartindo-a em 321 lotes de 300 metros, doando-a a associação particular, para que os vendesse a preços subsidiados aos trabalhadores da região, e não se esquecendo dos trabalhadores e ex-trabalhadores da sua Lagoa do Sino, como nos conta Rafael Cariello, na revista Piauí de julho de 2012.

Falar em dinheiro para uma pessoa como essa é o mesmo que rastejar como prova invertida de altivez de espírito e de caráter.

A cega reação stalinista elevou os pontos do ministro agressivo junto ao governo que procura sua legitimidade na ligeireza de soluções legislativas e administrativas de problemas agudos e graves, sem a originalidade da consulta demorada e da discursão aprofundada, como são necessárias ao país.

O ministro destemperado poderia até usar da palavra, com ou sem alteração da pauta, mas que falasse respeitando o cidadão, o escritor, o humanista, o homem livre e digno que é Raduan Nassar.

O metro de orientação de governantes e gestores públicos para o fenômeno democrático da vaia, especialmente agora, quando “vivemos tempos sombrios”, está na biografia de Juscelino Kubitschek, que, um dia, sofreu uma estrondosa vaia. Ele declarou, respeitosamente: “Feliz do povo que pode vaiar seu presidente”.

Feliz do povo que pode vaiar o seu ministro da Cultura.