No próximo dia 25 de janeiro, completa-se a tríade formada por personalidades da história política brasileira que completariam cem anos de idade. São eles: André Franco Montoro, Ulysses Guimarães e Jânio da Silva Quadros.

Agora é a vez de falarmos de Jânio, nascido em Campo Grande, no estado do Mato Grosso, e que fez carreira política em São Paulo.

Um meteoro.

Ele foi vereador, eleito em 1947, logo em seguida, deputado estadual, em 1950, prefeito da capital em 1950, e depois governador, em 1954, para candidatar-se a presidente da República, e vencer. Sua posse ocorreu no dia 31 de janeiro de 1961, mas sua renúncia, sete meses depois, abriu uma crise institucional, que ficou camuflada com a adoção do parlamentarismo, depois revogado, para chegar ao auge do golpe de Estado de 31 de março de 1964. Voltou à prefeitura de São Paulo em 1986, e no dia de sua posse surpreendeu, desinfetando a cadeira do seu gabinete, dizendo assim: “Gostaria que os senhores testemunhassem que estou desinfetando esta poltrona, porque nádegas indevidas a usaram…” “porque Henrique Cardoso nunca teria o direito de sentar-se cá e o fez de forma abusiva. Por isso desinfeto a poltrona”.

Ele, cassado, sofreu a pena de banimento, que lhe foi aplicada pelos militares golpistas, enquanto prosseguia a controvérsia sobre as razões reais de sua renúncia, nunca convincentemente explicada, salvando-se aquela razão para a qual a intenção era mesmo concentrar, no poder, poderes exacerbados, ou sejam, poderes autoritários.

Professor de português, esbanjava o saber da língua no seu modo peculiar de falar. Cada discurso seu era um atrativo especial, porque pausado, entrecortado de silêncio estendido, com os verbos empregados na mesóclise (“Bebo, porque é liquido. Se fosse solida, comê-la-ia”), ou com mesmo preciosismo do “Fi-lo, porque qui-lo”. É autor da obra Curso Prático da Língua Portuguesa e Sua Literatura, em quatro volumes.

Marcadamente moralizante, sua campanha política tinha como símbolo a vassoura, cuja colocação no tempo, lá atrás, nos recorda que a luta contra a corrupção, se deve ser permanente, não se resume no mérito de um iluminado que resolva ser oportunista, para insinuar que é ele o salvador.

Esse exemplo de frustrado cavaleiro da moralidade pública nos ensina que essa luta será verdadeiramente eficaz quando feita por meio de instituições livres na democracia participativa, cuja construção se sabe ser inacabada sempre.

Carreira política meteórica, com o brilhantismo de seus discursos e de sua fala, gravou na história política da nação um exemplo de quem tangenciou os problemas em nome da moral, sem nunca atacá-los de frente e a fundo.

Sua passagem pela presidência da República tem o destaque de sua política externa independente, defendida pelo chancelar Afonso Arinos de Melo Franco, e a controvertida condecoração de Ernesto Che Guevara, revolucionário de Cuba, que recebeu, cinco dias antes da renúncia, a condecoração da Grã-Cruz da Ordem Nacional Cruzeiro do Sul, após participação na Conferencia de Montevidéu. O ato seria o reconhecimento do governo brasileiro à suspensão de fuzilamento de vinte sacerdotes católicos, condenados em Cuba, e que acabaram exilados na Espanha. O Brasil intercedera junto à Guevara a pedido do Vaticano.

Formado na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP) foi contemporâneo dos outros dois, Montoro e Ulysses, com os quais não fez política no mesmo campo ideológico.

Para ocupar o governo de São Paulo e a presidência da República cercou-se de antigos contemporâneos da Faculdade de Direito: Quintanilha Ribeiro, Oscar Pedro Horta, Afrânio de Oliveira, J. B. Viana de Moraes, Francisco Castro Neves, Carvalho Pinto, este um ilustre técnico, quando Jânio o elegeu governador.

Também, foi seu conterrâneo o senador Auro de Moura Andrade, que, como presidente do Congresso Nacional, recebeu a carta de renúncia de Jânio, e em menos de cinco minutos declarou vago o cargo de presidente, articulando a posse de Ranieri Mazzilli. Com igual pressa, em 1964, declarou vago o mesmo cargo, quando o presidente Jango Goulart se deslocou de Brasília para Porto Alegre.

Jânio morreu, em 1992, em São Paulo.

 

Publicado originalmente no informativo Folha Dobrada, da Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo