Aquela fila indiana formada por pessoas de variadas idades e etnias quase cortava ao meio a Praça da Sé, e elas subiam silenciosas as escadarias da Catedral. Os fiéis se aproximavam, passo a passo, do corpo sem vida encoberto pelos cânticos religiosos. Esse retrato revela que se realizava ali a maneira como ele escolheu para ser lembrado – “amigo do povo”.

Dom Paulo Evaristo Arns, o cardeal progressista de alma humilde e suave, voz mansa, era o humanismo cristão encarnado, como era a encarnação da coragem moral, que tanto desagradou as autoridades da ditadura. Em audiência com Dom Paulo, em 1971, o presidente Médici ouviu a denúncia das torturas, e confirmou-as – dizendo-as necessárias, porém –, encerrando o encontro aos berros, com a ameaça de prisão dos bispos se criassem problemas. Foi o encontro da mansidão contra a truculência. E aquele acidente de automóvel, no Rio de Janeiro, foi um atentado contra sua vida. Tinha certeza disso.

Desde moço, como padre, se dedicava aos pobres dos morros de Petrópolis, sendo que depois voltou à cidade para ser professor, quando veio da Europa, onde estudara e defendera tese de doutor na Universidade de Sorbonne, na França. Ordenado em 1945, foi bispo em 1966, e nomeado arcebispo de São Paulo em 1970. Escreveu 55 livros e recebeu 164 títulos, aqui e no exterior, sendo um deles o de “Cidadão Paulistano”, cuja autoria foi do então vereador Flávio Bierrenbach, que o saudou em plenário.

Ele era devoto de santa Clara de Assis, a padroeira da ordem franciscana, como recorda Robinson Borges no jornal Valor Econômico, e cuja santa traz em sua biografia o enfrentamento não só com a Cúria romana, que a advertia por sua preferência pela pobreza, como também contra os poderosos, que se inquietavam com a sua indiferença pelas coisas materiais.

A vida de dom Paulo e a de santa Clara se igualam na grandeza histórica da simplicidade, da moral religiosa e da força ética. Não lhe faltaram difamadores. Jimmy Carter, presidente dos Estados Unidos, que fez questão de encontrar-se com ele no Rio de Janeiro, para contrariedade dos militares, escreveu depois em seu diário: “Um bom homem, eu gostaria de vê-lo papa. Extremamente corajoso […]”, como registra Elio Gaspari em A ditadura acabada, quinto volume de sua obra.

Dom Paulo tanto fez contra as torturas no Brasil como se dedicou a ajudar na construção de 2 mil Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), nas 43 paróquias que criou após sua ascensão como arcebispo de São Paulo. Criou a Comissão de Justiça e Paz em 1972 para dar proteção jurídica aos perseguidos políticos e a seus familiares.

Um exemplo clássico de seu espírito construtivo e integrativo, e relatado pelo jornalista Clóvis Rossi no jornal Folha de S.Paulo, é o das duas crianças uruguaias, separadas de seus pais assassinados pela ditadura daquele país e entregues a um casal chileno, que desconhecia a origem criminosa do sequestro. Dom Paulo coordenou o conhecimento recíproco das partes envolvidas, e as crianças conscientizadas continuaram com os pais afetivos, enquanto a avó de sangue pôde visitá-los quando quisesse e conviver em sua casa com os netos, quando eles pudessem.

Lutou pela anistia dos presos políticos, assim como prestou solidariedade às lideranças sindicais nos movimentos grevistas dos anos 1980.

A visita aos cárceres da ditadura, com a celebração de missas nas celas de presos políticos e a organização de milhares de papéis de processos judiciais no livro denominado Brasil: Nunca mais, representou mais um passo de sua luta humanista contra a estupidez e a barbárie da violência instalada no país durante 21 anos. Esse projeto contou com participação do rabino Henry Sobel e do pastor presbiteriano Jaime Wright, e com o auxílio do Conselho Mundial das Igrejas. Na verdade, o livro se converteu na prisão perpétua de quem violou os direitos fundamentais da pessoa. Didaticamente, gerações futuras, sucessivas e intermináveis, poderão visitar esse bendito livro e conhecer e rezar por tais torturadores e por suas vítimas.

O degelo da ditadura foi acelerado com a missa ecumênica que ele organizou na catedral da Sé devido ao assassinato do jornalista Vladimir Herzog nos porões do Destacamento de Operações de Informação-Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi), no dia 25 de outubro de 1975, e em cujo término ele orientava a multidão diante do cerco militar existente na Praça. Era para não provocar, era para não responder à provocação.

Como defensor inabalável dos direitos humanos, era compromissado com a restauração democrática, e apoiou o movimento das Diretas Já.

Com a teologia da libertação, aprofundou sua luta contra as desigualdades sociais, o que resultou em sobressalto na Cúria romana, no pontificado conservador de João Paulo II e posteriormente no de Bento XVI, chamado antes de Joseph Ratzinger. Este, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, denominação atual do que foi a Santa Inquisição da Idade Média, aplicou a revogação prática dessa teologia libertadora. Venceu o triunfalismo da Igreja romana, mas dom Paulo fez questão de marcar sua solidariedade e presença ao acompanhar – e lhe foi permitido fazê-lo – parte do depoimento do teólogo brasileiro Leonardo Boff, prestado perante Ratzinger. Decretaram-lhe, no final, a pena de silêncio obsequioso por um ano. Depois, em 1992, ele deixou a Igreja. Uma curiosidade que sempre pontua a vida de Joseph Ratzinger, Bento XVI, é que, nascido na Alemanha, ele pertenceu à juventude nazista.

A Cúria romana foi implacável. Sua comunidade incluía 395 paróquias, quando lhe foram subtraídas 146, ficando reduzido pela metade o território sob sua responsabilidade, no qual habitavam quase 15 milhões de pessoas. E o bispo auxiliar dom Celso de Queirós, que ele preparava para substituí-lo, foi enviado para Catanduva.

Dom Paulo, como arcebispo, vendeu, tal como dom Helder Câmara e dom Antônio Fragoso, o Palácio Episcopal por 5 milhões de dólares, aplicando-os em obras sociais na periferia, exatamente em 1.200 centros comunitários. Esse ato absolutamente compatível com sua crença, fé e vida, está na linha do compromisso, adotado por ele, e que foi assinado por 41 bispos presentes no Concílio Vaticano II, convocado por João XXIII, e que “se reuniram no silêncio das catacumbas de Domitila para fazer um juramento de fidelidade às ideias renovadoras do Concílio. Foi chamado de Pacto das Catacumbas. O documento consistia em 13 promessas, entre elas a de ao voltar do Concílio, viver em suas dioceses como pessoas simples, sem palácios ou roupas vistosas, sem bens próprios, compartilhando a vida da classe trabalhadora. Ali foram lançadas as primeiras sementes da futura teologia da libertação” (Disponível em: El País).

O semeador incansável, no final desse tumultuado ano de 2016, reforça pelo milagre da ressurreição a esperança que, cada um daquela fila indiana, celebrou e agradecia ao “amigo do povo”, na Catedral repleta de alegria cristã.