Como um rio que desemboca no mar, o mês de dezembro recebeu um surpreendente tsunami de dor e lágrimas, provindas das montanhas colombianas, que assistiram silenciosas à queda estrondosa do avião que conduzia, com jornalistas a bordo, a delegação brasileira de futebol de Chapecó.

Nesse mundo de intolerância e preconceitos, que tem se convertido rapidamente em ódio entre pessoas e entre nações, essa tragédia, que se soma a tantas outras, diferentes na singularidade da desgraça, aponta um sentimento enraizado no ventre do espírito natalino.

Pode-se declarar que a energia liberada pela desgraça é a da fraternidade, pode-se declarar que o sentimento que declarou seu império é o da solidariedade, mas seguramente, qualquer que seja o nome dado, ele está no espírito do Natal.

A desgraça trouxe lições sabidas. A conquista da glória pode ficar no quase. A vida ou depende de outro igual, ou é entregue à vontade leve e invisível do divino, ou habita a incerteza permanente ou a permanente dúvida existencial.

A lição do legado que se constrói no dia a dia é que não temos o controle do passado nem do presente, e muito menos do futuro, apesar de o homem ter tido essa ilusão, porque pensa ter dominado as forças da natureza.

Diariamente, não manifestamos nossa solidariedade para tantos que sofrem como refugiados, ou como africanos famintos, ou como palestinos oprimidos, ou como brasileiros desempregados, ou como milhões encharcados de miséria ou pobreza, mas a exuberância dessa dor coletiva recupera para o mundo o melhor que o ser humano pode transpirar em seus gestos, sorrisos, lágrimas e abraços, que é a solidariedade.

A solidariedade nascida dentre os corpos inertes de tantos mortos e dos corpos pulsantes de tão poucos sobreviventes, como lição, prepara nossa sensibilidade e nossa percepção para transformar, com a energia do amor, a consciência e o horizonte desse mundo que se destroça na intolerância, convertida em ódios religiosos, políticos, ideológicos.

O Natal é a promessa para uns, a certeza para outros, dessa energia redentora, pois ele representa a teimosia histórica do Amor.

Feliz Natal.