Em 1946, aconteceu um fato incrível. O delegado brasileiro junto à Unesco (Organização Internacional das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), apresentou a proposta de que a Hileia Amazônica se vinculasse a um organismo internacional, já que assim a Unesco poderia patrocinar pesquisas cientificas em seu território.

Em 1948, em reunião no México, os delegados brasileiros assinaram o instrumento da convenção que celebrava o Instituto Internacional da Hileia Amazônica e o seu respectivo protocolo financeiro. Obrigatória, porém, era, como é, a sua aprovação pelo Congresso Nacional. Está na Constituição Federal que toda vez que o presidente da República celebrar tratados, convenções ou atos internacionais (art. 84-VIII da Constituição), impõe-se tal ato congressual como condição necessária à sua validade.

A participação nesse Instituto era a de qualquer país pertencente às Nações Unidas. A finalidade seria a prospecção, estudos, pesquisas, e ainda relacionar-se com governos e pessoas físicas e jurídicas.

O geógrafo e educador Sérgio Adas preleciona: “O bioma Amazônia ocupa 50% da superfície da América do Sul, e o Brasil tem o domínio da maior extensão de terras da chamada Amazônia Continental – também conhecida como Amazônia Internacional ou Pan-Amazônia, formada por nove países: 85% situa-se em território brasileiro, o que corresponde a 5 217 423 km2, (ou seja, 61,29% da área territorial do país (8 511 965 km2). Além disso, 69,17% dos habitantes da Amazônia Continental residem na Amazônia brasileira, mais propriamente Amazônia Legal, conceito político e que foi instituído por lei em 1966, com o objetivo de implantar políticas de desenvolvimento na região. Nela, 24 milhões de pessoas, de acordo com o Censo de 2010, estão distribuídas em 775 municípios dos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins (98% da área do estado) e Maranhão (79%). Além de conter 20% do bioma Cerrado, a região abriga todo o bioma da Amazônia, o mais extenso dos biomas brasileiros, que corresponde a 1/3 das florestas tropicais úmidas do planeta, detém a mais elevada biodiversidade, o maior banco genético e 1/5 da disponibilidade mundial de água potável”. Aliás, em 2010, descobriu-se o Aquífero Alter do Chão (nome de um distrito administrativo de Santarém-Pará). Esse Aquífero, que é maior do que o Aquífero Guarani, se encontra em partes do estado do Pará, do Amazonas e em extensa porção do estado do Amapá.

Se a sede dessa invasão estrangeira fosse Manaus, o Brasil teria os mesmos direitos dos países que participassem dessa auspiciosa empresa, e essa ausência de qualquer prioridade ou preferência está no fato de que até o instrumento contratual de sua constituição não tinha versão em português. Uma inusitada sabujice de colono.

Dois discursos do professor Gofredo Silva Teles, que era deputado federal e conta essa história em seu livro autobiográfico Folha Dobrada, e a firme posição do Estado Maior das nossas Forças Armadas foram suficientes para acabar com a iniciativa. Afinal, estaria jogada às traças toda preocupação e sentimento de autodeterminação do país.

Se um geólogo estrangeiro já dizia, antes da década de 1950, que “na Amazônia há mais petróleo do que água”, outro declarava peremptoriamente que não existia petróleo no Brasil. O fato é que o petróleo, como fonte de energia, tornou-se o produto estratégico na vida de qualquer país, e a independência da Dinamarca em relação à produção do Oriente, desde a primeira crise energética de 1973-1974, demonstra o sinal de um futuro que ninguém pode traçar seu tempo de chegada, significando que o mesmo poderá acontecer com o resto do mundo. Porém, é certo que as fontes de energias alternativas estão proliferando velozmente, sem que em regra tenham subprodutos, como os do petróleo, que ingressem na composição de milhares de produtos de nossa sociedade de consumo.

Contudo, se o petróleo ainda está longe de perder suma majestade como fator definidor de geopolíticas, a água cresce no mapa das necessidades mundiais. Seu valor está até na comparação com o petróleo, pois, enquanto água é vida, petróleo é bem-estar e conforto.

Essa relevância da água, que ingressa como prioridade na pauta nacional e internacional, gera uma espécie de inquietude com a manifestação de intelectuais argentinos sobre a cessão do espaço de seu território para instalação de base militar norte-americana como resultado da viagem de Obama ao país. Ela será instalada na região da Patagônia, que é rica em muitos minerais, água e petróleo. E a inquietação aumenta quando eles dizem que nossos irmãos do norte querem ter o controle do Aquífero Guarani.

A água é a vitalidade essencial do ser humano, e a cidade de Ribeirão Preto se abastece com a água do Aquífero Guarani. A irresponsabilidade de gestores e autoridades locais permite a perda de quantidades significativas, por antiguidade de seus tubos, em anos e anos seguidos. Afinal, cano de água, porque enterrado, não dá voto. Este, inclusive, está alienado de qualquer cobiça estrangeira.