Acredita-se incerto ainda o impedimento da presidente eleita. No entanto, independentemente do resultado final, cientistas políticos, juristas e advogados devem continuar sua reflexão, pois se trata afinal de uma decisão soberana das urnas que foi revogada.

Agora é a vez das conversas gravadas. As conversas gravadas de Lula-Dilma ilegalmente vazadas pela imprensa foram de um homem indignado e humilhado pela condução coercitiva, como testemunha que não se negara a prestar sua colaboração como testemunha. Um excesso mais do que exuberante, escandaloso, que foi alvo de pedido de desculpas, que não extinguem o crime em tese de abuso do poder.

O Delcídio do Amaral, cujas conversas gravadas foram igualmente vazadas ilegalmente, foi considerado um articular da obstrução da justiça numa gravação que tem todos os indícios de um flagrante preparado. Preso em flagrante. Aliás, já se publicou que a figura central do episódio, o filho de um delator, nem está no Brasil, sintomaticamente.

Agora, Romero Jucá, líder do governo FHC e Lula, tem suas conversas gravadas publicadas pela imprensa e nelas aparece mais do que exuberante, arrogante, a confissão do golpe absolutamente necessário para afastar a presidente, objetivando estancar a operação Lava-Jato.

Temos, pois, uma tentativa explícita e real de obstrução da justiça. Antes, uma outra obstrução levou um senador à prisão em flagrante e à destituição do Senado, enquanto agora o ministro do Governo interino, já licenciado, apareceu revelando o plano da necessidade de afastar a presidente para estancar de vez a operação Lava-Jato. Ele continuará senador?

O Supremo Tribunal Federal seguramente vai determinar a suspensão do seu mandato, o Senado vai concordar com tal suspensão e os procuradores vão agir com mais contundência diante desse desassombro de um golpe de Estado explícito, necessário para prejudicar o andamento processual de tantos processos contra tantos políticos, inclusive contra os nomes que o senador Jucá apontou. Afinal, se os homens da virtude da lei agiram ilegalmente no caso da condução coercitiva de um e provavelmente contribuíram para o flagrante da prisão do senador, já que foi declarado que eles, procuradores, sabiam o que aconteceria, certamente não vão suportar essa violência contra a justiça. Vão requerer imediatamente a suspensão do mandato do corajoso senador, vão batalhar, vão marcar entrevistas, vão às televisões, às rádios e aos jornais. Irão?

A verdade é que somente das urnas, livres e democráticas, com o voto popular depositado no silêncio delas, é que se poderá ter a legitimidade das instituições enaltecida e respeitada, colocando os servidores da justiça no espaço reservado pela Constituição e pelas leis, para que cumpram o dever sem a sedução do espetáculo, jamais agindo como se fossem partidos políticos.