A leitura diária de jornais, o noticiário da televisão e a audiência de comentaristas políticos sobre a atual crise brasileira, que é econômica e preponderantemente política, conduzem-nos a duas vertentes, que acabam sugerindo prudência e desconfiança na análise do ler, do ouvir, do assistir.

Getúlio Vargas foi sitiado porque seu governo navegaria num “mar de corrupção”. Na verdade, poderosas forças não aceitavam sua condição de “pai dos pobres”, muito menos o monopólio estatal do petróleo. Tanto tempo foi governo, e até ditador de 1937 a 1946, e seu patrimônio era o da herança familiar. Sua morte representa um hino de dignidade na memória nacional.

Jango Goulart, o estancieiro de muitas fazendas, que desde jovem soube amealhar riquezas, acusado de ser aliado dos comunistas, tinha 65% de apoio da opinião pública quando foi desferido o golpe de Estado que o levou ao exílio no qual morreu. O ódio oligárquico contra ele nasceu em 1950, quando ministro do Trabalho. Nessa condição, “revolucionou” sua área simplesmente porque atendia os trabalhadores, rotina que não era seguida antes dele. Depois, em eleição sucessiva, foi vice-presidente. O fato de não resistir ao golpe de 1964, ao contrário do que se propalou até por vanglória sem glória, foi um ato de coragem, pois não queria ensanguentar o Brasil em defesa de seu mandato e colocar em perigo a integridade do território nacional com o desembarque da esquadra norte-americana, já navegando em direção às costas brasileiras. A história recente tem lhe feito justiça, como se o redescobrisse.

Juscelino Kubitschek, construtor de Brasília, foi acusado de ser a sétima fortuna do mundo. A ditadura o humilhou como pôde e ela podia tudo. Morto, o legado dele foi seu tempo de tolerância e de perdão de militares revoltosos do início de seu governo, um dos quais teve a grandeza moral de pedir-lhe desculpas mesmo estando ele cassado.

Esses fatos históricos eram comunicados pela imprensa livre, com toda força de seu convencimento, tal como a divulgação seletiva da interceptação telefônica feita recentemente entre o ex-presidente e a presidente do Brasil, como os separou o jornal O Valor, pela sua excelente jornalista Maria Cristina Fernandes no “Suplemento” da última semana, o que no sugere um exame até pelo viés da profissão.

Lula telefona para Gilberto Carvalho e pede a ele para ver se consegue, junto ao Hospital Sarah Kubitschek, lá de Brasília, uma cadeira de rodas para sua irmã. Não é estranho que esse “propalado milionário” de tanto dinheiro não teria a sensibilidade de doar uma cadeira de rodas para sua irmã? Porém, a publicação seletiva da interceptação telefônica (ilegal) não sonegou só isso, pois sonegou muitos telefonemas internacionais de pessoas que respeitam o ex-presidente.

Só se veiculou, na imprensa livre, o que poderia colocar gasolina no fogo. Essa insensatez ainda não foi investigada, mesmo que a intercepção seja escandalosamente ilegal, mesmo que o dever de investigar gere o crime de prevaricação quando não se investiga, pois é obrigatória a investigação. Mas, não se sonega que foram pedidas explicações pelo ministro Teori ao magistrado de Curitiba em face do requerimento da Advocacia Geral da União. Diferentemente, na Espanha, o grande magistrado internacionalmente conhecido Baltasar Garzón, que prendeu o ditador Pinochet, nunca foi eleito um dos homens mais poderosos pela revista Forbes.

Mais. A polícia federal encontrou um contrato particular de compra e venda do sítio de Atibaia e também um orçamento de reformas? A eficiente polícia quer esclarecimentos do ex-presidente, diz a imprensa livre. Esclarecer o quê? Contrato não assinado é contrato inexistente. E o orçamento da reforma? Ora, quem vai receber gratuitamente uma reforma, como se diz ter ele recebido, não pede orçamento do mimo a receber. Esclarecer o quê? Por que ele não consumou a compra? Eis o ridículo em ritmo de verdade mentirosa.

Leu-se, antes, a condução coercitiva do ex-presidente, que não se recusara a testemunhar ou depor. Foi levado para uma repartição militar do Aeroporto de Congonhas quando ele poderia ter sido ouvido em sua própria casa, como disse o desembargador aposentado Walter Fanganiello Maierovitch em seu artigo na revista Carta Capital. Adivinha-se: será que desejavam fazer crer que os militares estariam envolvidos nesse ato ilegal e inconstitucional, sugerindo algo semelhante à República do Galeão no episódio que resultou na morte de Getúlio? Por quê? Os militares têm dito que só agirão de acordo com o artigo 142 da Constituição Federal, que diz: “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas na base da hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do presidente da República, e destinam-se à defesa da pátria, à garantia dos poderes constituídos e, por iniciativa de qualquer deles, da lei e da ordem”. A insensatez não foi investigada por enquanto. O ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki pediu explicações ao juiz Sergio Moro, das quais poderá resultar num procedimento disciplinar junto à corregedoria do Tribunal Regional da 3ª Região ou perante o Conselho Nacional da Magistratura, como a jornalista Bárbara Mengardo comenta no Jota. Em caso semelhante, só por uma única escuta ilegal autorizada por ele, o Supremo Tribunal da Espanha suspendeu o grande e famoso magistrado Baltasar Garzón por onze anos.

Mas, o ex-presidente ofendeu ministros dos Tribunais Superiores naquele grampo insensatamente ilegal, diz a imprensa livre. Pensa-se: como deve agir um homem comum diante da humilhação gerada pela insensatez de um órgão oficial? A humilhação confere o direito ao humilhado de se rebelar – assim sem elegância alguma – com palavras e atos contra os que a patrocinam diretamente e os que se omitem diante dela quando não deveriam se omitir. Afinal, Teori Zavascki declarou em Ribeirão Preto que a discrição é a garantia da impessoalidade. Onde se acharia a discrição no fatídico episódio? Há injustiçado que xinga o criador do universo, e ele lhe dá razão, porque o criador separaria o conteúdo declarado e o respectivo instrumento utilizado sem lei e contra a lei. Se ilegal e inconstitucional esse instrumento, o criador diria que tal conteúdo deveria ser enviado a ele, sem publicá-lo jamais, e condenaria o “pecador” a férias forçadas no inferno de quarta categoria. O criador não suporta quem desobedece seus mandamentos, e separaria o joio do trigo para não fazer nenhuma injustiça nem iludir o seu rebanho, ainda que, às vezes, dividido por preconceitos convertidos em ódios.

E diria corajosamente: ninguém pode humilhar nenhuma pessoa. Humilhada, a intensidade da reação é compreendida pela intensidade da ofensa.