Agora, especialmente com a corrupção desventrada na Federação Internacional de Futebol (FIFA), nada como ler Eduardo Galeano no seu Futebol ao Sol e à Sombra, que também se debruça sobre a ligação do futebol com a política. Mais ainda: essa obra do escritor uruguaio ganha atualidade em face da existência no Congresso Nacional da chamada “bancada da bola”, verdadeira trincheira de proteção de dirigentes e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Esse vínculo entre futebol e política ele registra fartamente em seu livro.

“O futebol e a pátria [escreve ele] estão sempre unidos, e com frequência os políticos e os ditadores especulam com esses vínculos de identidade. A esquadra italiana ganhou os mundiais de 1934 e 1938 em nome da pátria e de Mussolini e seus jogadores começavam e terminavam cada partida dando vivas à Itália e saudando o público com a palma da mão estendida”. E, nessa época da ascensão do fascismo no mundo, sua vertente alemã seguiu a mesma regra, já que, “também para os nazistas, o futebol era uma questão de Estado”.

Essa ligação quase umbilical entre política e futebol está caracterizada pela sua absoluta necessidade de utilizar a camisa, as cores, a bandeira, o hino e a alma esportiva do país. Pode-se chamá-la até como uma espécie diferente de máfia, que seria a máfia patriótica. E, nem por isso, ou até por isso, milhões de pessoas nem sempre são consideradas como um sinal de identidade coletiva.

Na verdade, hoje o futebol perdeu aquele grau de espontaneidade gratuita de outrora para tornar-se um negócio multinacional de bilhões de dólares, que se submete às televisões, que decidem onde, como e quando jogam tal ou qual seleção.

É brasileiro o gênio criador dessa organização multinacional, João Havelange, que reinou por 25 anos depois de desalojar da presidência da FIFA, em 1974, na Suíça, o honrado Stanley Rous. E depois Havelange se tornou vítima do efeito perverso da corrupção, porque descoberta. E, a corrução, quando descoberta, humilha o “revelado” que dela se aproveitou, colocando-o no pelourinho da sanção ou censura pública, que tantas vezes é marcada de sincera hipocrisia, porque o “revelado” fica com o dinheiro que não deveria receber, às vezes até rindo.

Mas um efeito concreto aconteceu: Havelange afastou-se definitivamente da FIFA, mas nem tanto. Ele arrumou um lugar para seu ex-genro, Ricardo Teixeira, o monarca da CBF do Brasil, no auge da turbulência criada por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), em 2001. E, ainda, no seu lugar ficou o seu braço direito, que é o renunciante atual da presidência, Joseph Blatter, burocrata que nunca chutou uma bola, mas sucedeu o monarca como monarca. Havelange deixou a FIFA, uma entidade privada, que tem 208 países filiados, enquanto a Organização das Nações Unidas (ONU), tem 192.

Espírito centralizador e autoritário, Havelange declarou que, no futebol, o seu maior prazer é a disciplina. Talvez por isso identificava-se com o homem que foi ligado à ditatura de Franco, seu amigo, eleito em 1980 para a presidência do Comitê Olímpico Internacional com campanha financiada por duas multinacionais.

A ligação da política e do futebol está ilustrada em muitos atos e fatos, que envergonham a humanidade tal sua perversão. E Galeano a expõe com absoluto realismo, como a daquele time de Kiev, na Ucrânia, em 1942, que os nazistas sacrificaram, fiéis à sua política de superioridade de raça e extermínio.

Durante a ocupação, o conceituado time de Kiev foi desafiado a jogar com uma seleção de Hitler. Antes, porém, os jogadores foram advertidos: se ganharem, morrem. Todos morreram, porque venceram o medo com a vontade de serem dignos. Todos fuzilados, lá no alto do barranco, após a partida.

Entretanto, essa vinculação entre a política e o futebol tem nuances, vertentes e exceções fortes, como do time espanhol do Barcelona, que sempre foi considerado “mais que um time”. E com muita razão, pois a eclosão da Guerra Civil Espanhola, em 1936, levou o time a disputar partidas nos Estados Unidos e México, enquanto uma seleção basca andava pela Europa, ambas recolhendo fundos e fazendo propaganda em defesa e para os republicanos, que terminaram massacrados por Franco. Muitos desses jogadores, após a derrota da República, ficaram na França. A vitória franquista despertou na FIFA seu espírito sabujo e ela considerou exilados os tais jogadores, provocando forte indignação, que a forçou a rever seu ato mesquinho.

Mas essa ditadura pode contar com um time para selar seu cartão de apresentação favorável. A equipe de futebol do Real Madrid, deslumbrante. Era um exemplo da raça, “apesar de parecer a legião estrangeira”.

Só que um time, mesmo que fabuloso, equiparado a um cartão de apresentação de uma ditadura, ou de todas as ditaduras, não contamina o momento sublime desse esporte, que é o gol.

E o gol escolhido para esse final de conversa foi de “Heleno de Freitas, que tinha pinta de cigano, cara de Rodolfo Valentino, e humor de cão raivoso. Nas canchas, resplandecia”.

E esse seu gol aconteceu em 1947, quando jogava pelo Botafogo, naquele jogo com o Flamengo. “O corner foi batido. Heleno saltou, matou a bola no peito, e curvou-se para trás, para ultrapassar a selva de pernas que o separava do gol adversário. Conduziu a bola no peito, até atravessar a floresta e marcar o gol histórico. O adversário não poderia tirar a bola do peito sem fazer falta”. Gol.