A Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto, quando escolheu o nome do seu patrono, se tivesse sido influenciada, assim, no delírio, pelo Dia dos Namorados, daria a Divo Marino mais um motivo para ser o eleito.

É difícil lembrar dele pela vida, até andando nas ruas à luz do sol, sem vê-lo com sua mulher, Anice, exatamente ao seu lado, como se ambos proibissem que a surpresa ou o prazer assaltasse um sem o outro, como se a lágrima fosse sempre dos dois, tal como o sorriso e a dor.

Raro é encontrar a prova provada dos amantes, que um dia, lá longe, um fez ao outro em silêncio e sem palavras, a jura de envelhecer juntos, esse sinal da eternidade na Terra que é o amor plural, feito singular.

Divo Marino é o patrono da Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto, e sua mulher, Anice, é a patronesse vitalícia dele.

Ambos, com as filhas e os netos, têm a felicidade de olhar a semeadura, que a comunidade reconhece com o esplendor do acontecimento cultural de nossa Feira e sua repercussão pelo mundo afora.

Ouço sempre o testemunho de sua grande compreensão e amizade.

Como escritor, foi pioneiro em flagrar o instrumento de comunicação de massa e seu efeito vitorioso em eleições com seu livro Populismo Radiofônico, uma explicação de um fenômeno municipal que tem vocação expansiva, pois ele é o mesmo em qualquer lugar do país. Sua arte se ocupou também, e muito, da criança, como um sopro milagroso de coração terno, escrevendo O Desenho Infantil e a Sexualidade, Influência do Meio Ambiente sobre o Desenho Infantil, Metodologia do Desenho da Criança e O Desenho da Criança. Na política, mostrou a raiz de sua preocupação e compromisso quando escreveu Orquídeas para Lincoln Gordon, o ex-embaixador norte-americano no Brasil de 1964, que a documentação histórica, liberada pelo seu país, revela o grau de sua intromissão, calculada e persistente, no golpe de 1964. No ano seguinte, o ilustre embaixador recebeu o título de Cidadão Ribeirão-Pretano.

Como artista plástico, fica o traçado leve de suas caricaturas e seus desenhos, cujas linhas revelam a personalidade múltipla de sua inspiração.

Como jornalista, hoje tem presença semanal em A Cidade, mas A Palavra foi o jornal, antes de 1964, que, ao lado de sua mulher, vibrava com sua consciência cívica, social e política nacionalista encarnada nas reformas de base, que prometiam a construção do país transformado e justo. O militarismo não suportava espíritos independentes e a expressão de sua liberdade, por isso A Palavra foi sufocada.

Homem de posição político-ideológica marcada, firme na defesa de suas convicções, inspirado da palavra escrita, artista de sensibilidade comovente, chega ao entardecer de seu tempo histórico com a calmaria reservada à idade.

O tempo revolto do debate, do dissenso democrático, a vontade de fazer rapidamente o que a geração atual precisa usufruir por direito próprio nesse país eterna promessa cede lugar à força do respeito coletivo.

A história de Divo Marino e de sua mulher, Anice, é a história do anseio que alcançou sua integração no entardecer, que ouve, já, os remotos ecos da travessia.