Nada relativo à corrupção na Federação Internacional de Futebol (Fifa) surpreende. Nada relativo à corrupção de dirigentes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) deve surpreender.

Em 2001, houve uma CPI inconclusa no Congresso Nacional, quando a chamada “bancada da bola” colocou um véu de proteção, frustrando qualquer consequência do imenso trabalho realizado. Um jornalista escocês, Andrew Jennings, premiado com o troféu Integridade em Jornalismo, apareceu no programa Panorama da BBC, em 2006, para denunciar a propina de milhões de dólares, que vinculava dirigentes da Fifa com empresas de marketing esportivo. Ela estava envolvida, já, em suborno de membros do colégio eleitoral convocado para a eleição de seu presidente. Desde então, esse jornalista não parou de investigar o mundo do futebol. No Brasil, o jornalismo esportivo, conscientemente crítico, jamais foi omisso à atuação de dirigentes da CBF.

Em 30 de setembro de 2013, surgiu uma entidade denominada Bom Senso Futebol Clube, que congrega jogadores de futebol com o objetivo de debater, sugerir e propor, junto ao governo federal, deputados e senadores, medidas para modernização de gestão e responsabilidade fiscal dos clubes. A sua atuação tem tido presença forte e consequência positiva.

Agora, a corrupção do futebol revelada internacionalmente, que prende um ex-presidente da CBF que foi deputado estadual e governador de São Paulo, é uma espécie de bomba atômica na cabeça coletiva de todos que colocam o véu de proteção da entidade, no Congresso Nacional, que se agrupa sob a etiqueta de “bancada da bola”.

Só o designativo “bancada da bola”, larga e fartamente veiculado pela imprensa, corporifica sua existência. A última dela, estonteante e imoral, refere-se ao parcelamento dos débitos tributários dos clubes. A tal bancada retirou a necessária contrapartida, ou seja, a garantia de pagamento, cuja fiscalização e execução não seriam dos representantes legais da Fazenda, mas da CBF, que aplicaria, aqui e acolá, sanções administrativas aos clubes inadimplentes. Houve o veto presidencial recente. Logo em seguida, o governo enviou ao Legislativo novo projeto, para garantir gestão moderna, organização funcional, responsabilidade de dirigentes e com contrapartidas para o parcelamento das dívidas dos clubes. A tramitação legislativa atual encontra-se com a “bancada da bola” enfraquecida pelo anunciado desmonte internacional da corrupção exposta.

Porém, essa corrupção, ajudada direta ou indiretamente pelos representantes do povo brasileiro, revela uma característica gravíssima de seu absurdo. Ela é realizada debaixo da bandeira nacional, com os símbolos verde-amarelo e o cântico de nosso hino, que emociona os milhões que compõem a torcida brasileira dentro e fora dos estádios.

Enquanto cantamos, nos emocionamos, torcemos e xingamos a desgraça, eles não largam o queijo podre da corrupção.