O cidadão, o médico, o filantropo, Luiz Gaetani morreu.

Pude prestar, como tantos, junto ao corpo inerte, a homenagem da oração silenciosa, e abraçar a família enlutada.

A vida de um, quando se finda, leva-nos a pensar na vida dos outros, e, mais, muito mais, na própria.

O que fiz, e não mais de onde venho; como fiz, e não mais o que farei; o que deixo como legado, e não mais para onde vou. Busca-se assim, pela pressão do inevitável, o sentido expresso na construção do passado.

Como nenhum homem é Deus, todos incorrem em erros. Uns são capitais, outros são erros veniais, de menor intensidade. A certeza é de que a vida não segue um rumo reto. Ela vai às vezes, finge que volta e continua. A vida define o tempo como implacável. Se a esperança não morre no corpo, ela incendeia o espírito para suportar as dores que o afligem, como afligiram Gaetani nos seus últimos anos, recolhido à casa que inventou para acolher tantas outras pessoas que, assim como ele, o tempo implacável alquebrou, com um corpo sofrido e uma mente que, às vezes, desconfiava de si e do mundo, na lucidez provisória de sua doença final e fatal. Será que morri, será que estou vivo?

Confiro a folha corrida do Gaetani para relembrar que a morte é a professora da igualdade, no como e no porquê do nascer e do morrer.

Não importa a sua posição política, ideológica e religiosa. Nem a sua opção esportiva ou tudo que possa contribuir para que uns e outros sejam como são, às vezes distanciados. Não, não importa.

A morte faz ressurgir facilmente o sentimento escondido da solidariedade, tornado saudade tantas vezes, só porque desaparece do cenário da controvérsia aquele outro que gostaríamos de ver divergir de nós (quem sabe!), para aplaudir (quem sabe!), para agradecer (quem sabe!).

A morte faz o milagre da ressurreição do dia a dia em que se deu a construção do homem na terra que lhe foi prometida e dada. Ela sugere a leitura de sua legenda, de sua biografia, garimpa erros e acertos, sua crença, sua fé, a dedicação na semeadura de seu tempo, a nota musical de sua partitura inesquecível, ora como letra, ora como orquestra, o tijolo de seu templo, de sua trincheira, o pincel de sua arte, o bisturi de sua profissão.

Confere-se a lealdade consigo mesmo, com a família, com os amigos e com tantos com os quais conviveu. Confere-se a fidelidade a cada princípio que ingressou no seu corpo, para inspirar e dirigir cada gesto seu, cada atuação sua na sociedade, e que fez seu pensamento sonhar e criar, para realizar, na prática, tudo o que, um dia, ocupou a fixidez de seu olhar indormido, nascido numa noite de primavera.

O cidadão, o médico, o filantropo, Luiz Gaetani soube dignificar o dom da vida.

Coloco sobre essa legenda humana o manto do respeito irrevogável, como a morte.