No início da década de 1980 estava na presidência dos Estados Unidos um político provindo das telas cinematográficas, Ronald Reagan. O ambiente internacional era dominado pela doutrina, estratégia e política da Guerra Fria, que dividia o mundo em capitalista e comunista. Nesse universo de posições radicais, não havia espírito crítico que não era colocado na vertente comunista pelo simples fato de querer olhar, compreender e sentir a realidade, e desejar melhorá-la, transformá-la, ainda que pacificamente.

O mundo estava assim, mas El Salvador estava, como está, ali na América Central, com aproximadamente 21 mil quilômetros quadrados e com a população aproximadamente de 6,5 milhões de habitantes, “mais perto do Texas do que o Texas de Massachusetts”, no dizer de Reagan. O pequeno país vivia o inferno de um governo direitista, enfrentando a guerrilha que se opunha a ele, e com a tensão agravada por estar geograficamente perto de Cuba.

Era um governo de extrema direita apoiado pelos Estados Unidos, sendo que o embaixador norte-americano, à época, naquele país era Robert E. White, que faleceu, em janeiro de 2015, aos 88 anos de idade. Esse homem, que foi transferido de El Salvador por não aceitar a blindagem dos crimes do governo apoiado pelo seu país, foi obrigado a deixar a carreira para continuar protestando, falando e pedindo justiça, em todo e qualquer foro visível e viável, contra o assassinato de quatro missionárias norte-americanas dedicadas ao trabalho social, que foram espancadas, estupradas, mortas com tiros na nuca, jogadas à beira de um estrada e cobertas com as próprias vestes, arrancadas pelos bandidos, mas recolhidas por camponeses e colocadas sobre os corpos sem vida. Duas delas jantaram com ele às vésperas da morte, e, 48 horas depois da tragédia, ele estava ali, próximo dos corpos, dizendo: “Desta vez eles não vão escapar”.

O tempo passou, mas o ex-ministro da Defesa de El Salvador, Carlos Eugenio Vides Casanova, que desde 1989 vivia sob o beneplácito da CIA na Florida, recentemente foi preso e ameaçado de deportação por ter acobertado o crime hediondo contra as missionárias. Outro ex-ministro da Defesa, Jose Guilherme Garcia, que usufrui da mesma proteção de órgãos oficiais em Miami, está prestes a perder seus privilégios e sofrer o mesmo destino de seu comparsa.

O ex-embaixador só guardou as armas de sua luta pelos direitos humanos com sua morte. O destino não lhe deixou viver o sentimento de sua realização plena. Porém, seu nome e sua razão de viver deixam um exemplo reto e dignificante do “vale a pena viver”, até como ex-diplomata.

Por sua vez, a história do governo direitista de El Salvador estampa mais um cadáver ilustre, o de Óscar Arnulfo Romero Galdámez, dom Romero, que foi nomeado Arcebispo em 1977, e na homilia de novembro daquele ano declarou sua opção preferencial: “A missão da Igreja é identificar-se com os pobres. Assim, a Igreja encontra sua salvação”.

Ele foi assassinado durante a missa que celebrava no dia 24 de março de 1980 por um soldado de elite do exército salvadorenho, treinado na Escola das Américas, sabidamente instalada no Panamá. A ONU, em 2010, instituiu o dia 24 de março como o Dia Internacional para o Direito à Verdade sobre Graves Violações de Direitos Humanos e pela Dignidade das Vítimas, em homenagem ao sacerdote morto.

O papa João Paulo II o declarou “Servo de Deus” em 1997. E, em fevereiro último, o papa Francisco reconheceu dom Romero como mártir, aprovando o decreto de sua beatificação.

O museu universal da estupidez humana contará, para sempre, a história de um embaixador digno e de um sacerdote morto durante a celebração da santa missa.