Recentemente, ocorreram duas mortes de duas personalidades, de dois homens cujos patrimônios de vida guardam muitos motivos para enaltecê-los sempre, para não esquecê-los jamais.

No Brasil, Paulo Brossard. No Uruguai, Eduardo Galeano.

O Brasil perdeu o advogado brilhante, o professor e o jurista, o político e o orador que a esperança democrática não esquece. Altivo e elegante na palavra, não transigiu com o regime autoritário, constituindo-se na verdadeira legenda daquele período de combate pela liberdade e pela justiça na tribuna do Senado Federal, da qual se ouvia a leveza da violência contra o arbítrio.

Era o político ovacionado nos restaurantes em que entrava. Com sua bengala, usava aquele inesquecível chapéu branco, na hora do aplauso coletivo, em sua mão esquerda, para agradecer a surpresa que a estima e o respeito paulista o distinguiam.

No Uruguai, suas veias abertas de tristeza choram pela América Latina e pelo mundo, não redimidos pela justiça social a que a voz inspirada do jornalista e do escritor genial tanto se dedicou com a sedução do amor, de cujos textos borbulha uma paixão indignada pela liberdade e pela justiça.

Diz-se que o mundo ficou mais pobre. Na verdade, a riqueza legada é intocada pelo esquecimento, pois ela não fica só no plano subjetivo do pensamento, ela se esparrama pelas paredes das construções humanas, como as digitais dos livros e do saber, que sempre os terão como um norte de vida digna e realizadora.