A vida permite uma pitada prolongada e forte de orgulho por uma amizade quando seu radar captura o roteiro de uma vida vivida com alma de garimpeiro e devoção de semeador. Essa é a certeza que aflora lendo a tradução do trabalho sobre Henrique Vianna de Amorim em Reflections & connections: Personal journeys through the life sciences. Essa publicação biográfica tem a finalidade de mostrar aos jovens a conexão possível e real entre a pesquisa científica e o empreendedorismo.

O cacau, o café e a cana-de-açúcar foram os focos da vida do pesquisador, mas se sabe que o garimpo das leis da natureza descobre interações infindáveis, com o benefício de que um conhecimento, como sempre, fica acumulado para servir a uma nova pesquisa e, quem sabe, a uma nova descoberta.

Ele nasceu em São Paulo e, ainda quando recém-nascido, seu pai, médico, mudou-se para Ribeirão Preto. Na cidade, a família encontrou-se com o tronco familiar já existente e gerou novas raízes, somando afetos e interesses no círculo imenso que souberam desenhar com dignidade. Ele estudou no Instituto de Educação Estadual Otoniel Mota. E, depois de não ser estudante de medicina, encontrou-se na agronomia da Esalq-USP, em Piracicaba, onde seu corpo franzino e baixo não deixou o esporte na modalidade de corrida e salto em altura. Em seguida, tornou-se seu professor ilustre durante anos.

Espírito associativo, eis o atributo que traça o desenho democrático de seu convívio universitário e de profissional alegre e brincalhão. A pesquisa adentrou sua curiosidade científica ainda estudante, quando seu experimento, apresentado em congresso com assinatura de seu grupo, versava sobre a nutrição mineral do cacau. A repercussão positiva incentivou o despertar da vocação.

O café era objeto de uma política de produção pela produção. A sua qualidade não preocupava. Cientificamente, a dúvida entre a fertilização química (que prejudicaria a qualidade da bebida) e a adubação orgânica serviu de base ao trabalho de seu grupo, gerando um sem número de artigos sobre o tema.

Ele, que estudara a cultura do café e a do cacau, buscou a similaridades entre essas plantas tropicais e os efeitos da fermentação em cada cultura, condição para a boa qualidade do chocolate, mas que, no caso do café, quando feita em momento impróprio, estraga a qualidade da bebida. A pesquisa sobre fermentação alcoólica foi, na verdade, incentivada, no final de 1970, pela instituição do Programa Nacional do Álcool e o resultado do trabalho inovador e único do grupo liderado por Henrique Amorim foi recebido pelo mundo científico com o respeito que merecia. E, justamente por causa da pesquisa, o produtor, especialmente o de Minas Gerais, pôde classificar a qualidade do café de sua produção com um simples teste de meia hora, cuja metodologia deve-se, pois, à liderança pesquisadora e científica de Henrique de Amorim.

Já com sua marca internacional, veio o convite da bolsa para pós-graduação. Esse convite foi simultâneo ao de trabalhar fora do Brasil e de ser docente na Esalq. Optou por fazer mestrado na Ohio State University (OSU), nos Estados Unidos, debruçando-se sobre a cultura dos tecidos, o que resultou em uma dissertação sobre uma novidade cientifica que adentrava o metabolismo dos fenóis, definidores da qualidade da bebida do café. Essa experiência lhe sugeriu propor a realização do primeiro curso sobre cultura dos tecidos, realizado em Piracicaba. Essa especialidade, depois desse encontro, expandiu-se pela América Latina.

A visita de seu cunhado, Maurilio Biagi, agora em New Orleans, onde havia passado a residir, provocou, devagarinho, a reviravolta do foco do pesquisador. Apesar de o nome da vez ser o etanol, dono de uma política governamental denominada Programa Nacional do Álcool (1975), o seu saber já o fizera consultor de uma empresa multinacional que industrializava o café. Foi no seu retorno ao Brasil que aprofundou a pesquisa sobre as boas práticas da colheita de café, seu despojamento, secagem e beneficiamento, assim como a armazenagem dos grãos em sacos plásticos para garantir a melhor qualidade da bebida.

Se o café era ainda objeto da sua pesquisa, ele ao mesmo tempo estudava fermentação, lendo milhares de trabalhos sobre o tema. No Brasil, entendia-se que a prática da fermentação da cachaça, produzida desde o Brasil Colônia, conferia a certeza de saber fazê-la. Ela durava 25 horas, porque não se fazia reciclagem das leveduras. Mas, a produção do período, em até 200 mil litros por dia por unidade produtora, deu-lhe a certeza de que era necessário adaptar-se às novas condições. Ajudado pelo avanço de tecnologia estrangeira, e sempre associado às pessoas de igual quilate, conseguiu aumentar a eficiência da produção brasileira do álcool, pois, se o rendimento da fermentação, em 1975, variava entre 75% e 80%, nos dias atuais passou de 90% a 92%. A assepsia da fábrica reduziu a contaminação bacteriana, impulsionado a rapidez da fermentação, que dura hoje, em regra, 12 horas.

É o livro Fermentação alcoólica: Ciência e tecnologia que registra a vanguarda brasileira pelo desenvolvimento da fermentação na produção do açúcar e do etanol, com ganhos espetaculares no rendimento: “o hectare cultivado de cana-de-açúcar, que rendia 3 mil litros de álcool por ano, em 1975, passou a render nos dias atuais a média de 7 mil a 10 mil anuais […]”.

Se em cursos e congressos internacionais foi o mensageiro de suas pesquisas e de suas descobertas, a sua empresa é dedicada a “gerar e transferir tecnologia de fermentação alcoólica e de controle de produção, por meio de melhoria contínua de seu sistema de gestão de qualidade, capacitando pessoas e organizações”, como também se coloca como centro de saber científico, que surge de seus laboratórios e da organização de cursos e, mais e ainda, da assessoria de dezenas de usinas brasileiras e dezenas de indústrias da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina, para as quais exporta tecnologia e saber.

É absolutamente impossível contar a história do crescimento da agroindústria brasileira sem mencionar o nome do professor e pesquisador Henrique Vianna de Amorim, que estudou, na idade do lá longe, no Instituto de Educação Estadual Otoniel Mota de Ribeirão Preto, lugar da celebração de nossa juventude. É ele que nos dá, hoje, essa pitada prolongada e forte de orgulho, em nome da amizade.

Cidadão ilustre, merece o reconhecimento público da cidade que o viu crescer como seu filho adotivo.