Nossa Ribeirão Preto marcou época na radiofonia brasileira com a antiga PRA-7 do senhor Bueno, cujo espírito inovador e realizador deixou uma marca indelével na memória da cidade e na de tantos jovens que frequentavam o seu Centro de Debates Culturais com o sentimento de que poderiam melhorar o mundo, fazê-lo justo, ouvindo, por exemplo, os deputados da Frente Parlamentar Nacionalista, composta de integrantes de tantos partidos, unidos em defesa da soberania nacional e do desenvolvimento social e econômico do país.

A consciência da época não era expandida, atiçada ou interessada na questão da cidade, do nosso lugar, de seus problemas, da perspectiva futura, da sua organização espacial, do seu ambiente saudável, da sua mobilidade.

Mais de cinquenta anos depois, acontece a Agenda Ribeirão. Agora o diretor da rádio CBN é André Coutinho. O evento é organizado pela sua emissora e pelo jornal A Cidade. A Agenda não acontece como um episódio salutar e único, mas como o início de um processo que reunirá anualmente o que de mais representativo possa ser reunido, para discutir, refletir e desenhar, como pilares de um debate, a cidade, como nela morar, como nela viver, como nela andar.

A singeleza de cada verbo encerra uma imensidão de ideias inovadoras, como aquela que registra a responsabilidade do governo e do mercado na construção de conjuntos habitacionais sem área de lazer, de comércio e de escolas, o que dificulta a sociabilidade de seus moradores. A distância entre a moradia e o trabalho, congestionada pelo trânsito nada fácil, nada rápido, também afeta negativamente o psicológico e o físico das pessoas. Modernamente, a organização urbana aproxima o trabalho da moradia.

E a ideia é mostrar a responsabilidade social do mercado e da sociedade civil, dos políticos, do Poder Público e de todos no desdobramento da “cultura da segregação”, que incentiva a proliferação dos condomínios fechados, concebidos para proteção da violência, quando, estatisticamente, em São Paulo, tornaram-se preferência dos bandidos, que se regozijam com a facilidade do alvo concentrado. Ainda há a consequência trágica do abandono das ruas, que ficam ermas, entregues ao domínio bandido, quebrando o que era, e precisa ser, o espaço da sociabilidade da população.

A ideia é ampliar as calçadas no centro em prol de sua revitalização, proibindo o estacionamento nas ruas, mesmo nas áreas azuis, mas com a construção prévia de torres espalhadas estudadamente pela área, para acolher, por exemplo, trezentos veículos. Seguramente, o investimento público-privado teria interesse de lucro porque haveria mercado cativo para a segurança da renda. E os comerciantes não precisam temer, porque onde foi feita essa revolução, o comércio cresceu.

A anualidade da Agenda Ribeirão trará ainda um desdobramento eficaz, pois seguramente acontecerá uma espécie de fiscalização do que for ou não for implantado, já que a sua concepção pertence aos órgãos de comunicação de massa, e, por consequência, cada ano haverá uma crítica positiva sobre o que se passou para melhor desenho e planejamento do que virá.