Às vezes, toda essa revisão histórica sobre o golpe militar-civil de 1964 nos conduz à forte emoção. Necessariamente, navegamos na lembrança da esperança sucumbida provisoriamente nos escombros da nacionalidade perdida durante tantos e tantos anos, como se ela e nós estivéssemos procurando, nós a nós mesmos, ela a si mesma, até retornarmos ao caminho democrático e áspero de sua redenção, sempre, sempre criando-se.

Aquela geração de estudantes pensava seriamente a nação, a pátria, o país e o seu desenvolvimento social e político com a temática das “reformas de base”. Era certo o avanço democrático de nossas instituições com o fervilhante debate sobre as vertentes políticas e ideológicas daquela atualidade, contidas no binômio “humanismo marxista x humanismo cristão”. Era certo que tudo aconteceria dentro da legalidade, até porque o nosso Exército era o “povo fardado”. Sim, havia a pregação das reformas “na lei ou na marra”, que tanto assustava os liberais, os conservadores e a nossa burguesia, todos envoltos na paranoia do anticomunismo, fortalecida com a existência de Cuba tão próxima e reforçada pelo interesse estratégico, político e militar dos norte-americanos.

Acontece o golpe.

Uma única pessoa, um amigo da Faculdade de Direito que em 1986 foi prefeito de Medianeira, no Paraná, com formação marxista, ele, só ele nos disse claramente, mesmo não se dando à prática da adivinhação: “Vai durar vinte anos”.

Durou um pouco mais.

Agora, cinquenta anos depois, o depoimento de Almino Affonso, orador ilustre, líder do PTB na Câmara Federal, é ouvido e é lido como uma convocação da memória histórica e nela entra a emoção com que vivíamos nos preparando desde o tempo do Ginásio do Estado para servir o Brasil no espaço e nos limites que o destino nos reservaria.

O golpe acabou com aquele sonho.

Acreditávamos tanto na força da palavra, que, um dia, a tentação era enforcá-la para não mais ser pronunciada como inutilidade.

Só que inútil ela nunca é. O desespero e a descrença realmente não podem duvidar disso e dela, já que o terreno da dor é umedecido pelas lágrimas dos que sofrem, torturados ou não, ou do suor dos que trabalham e lutam sempre com aquele fiapo de luz, que dá sentido à vida.

A esperança, nós podemos reencontrá-la a cada instante. Até aquela, que ficou lá longe, embaçada pela brutalidade dos homens e do tempo.