Ela, aquela mulher miúda. Sempre que a encontrava deixava aflorar um sorriso, e não se esquecia de perguntar por Celso, amigo em comum que foi ex-padre durante tanto tempo e que já morreu como ela. Odilla Mestriner.

Se eu tinha curiosidade de conhecer o toque milagroso de sua arte, o livro A saga de Odilla Mestriner, de seu irmão Antonio Mestriner, apresentou as peças desse mosaico humano de sensibilidade e talento dedicado ao desenho, à pintura, às artes plásticas, ao grafismo. Apresentou aquela doença da juventude que a reteve consigo mesma durante tanto tempo, deixando sequelas nos terminais de seu corpo. Essa doença, que a acometeu ainda jovem, talvez explique toda a sua criação, definida pela própria artista como sendo de “estrutura rígida, austera, simétrica, fechada, consequência da minha maneira de ser e viver”. Ou talvez porque “…a arte é a ciência da liberdade”.

Se a histórica Fundação de Ribeirão Preto tem a imortalidade de seu trabalho gráfico em tela, as Bienais serviram para colocá-la no foco internacional da cultura, e as exposições nacionais receberam-na sempre com a reverência que se presta a gênios.

Em 1970, ela pintou o Homem cósmico (“Pego um tema e entro de cabeça. Permaneço nele até esgotá-lo”). Olhos arregalados, surpreso com o mundo e seu universo, tema que marcou presença em larga e farta produção sua. E, em 1990, foi a vez da série Andantes. Quando imagino uma e outra, arrisco que, com essa última, ela encontrou – quem sabe! – o caminho real para ela mesma trilhar no mundo e no universo que a surpreendera tanto antes.

Bassano Vaccarini, genial escultor italiano, que, entre 1980 e 2002, data de sua morte, fez da cidade de Altinópolis “um museu a céu aberto”, não precisou ser profeta. Na juventude de Odilla, examinando criticamente “o pigmento negro de nanquim”, “sobre a superfície alvadia do papel”, reconheceu a segurança invulgar de cada traço de seu desenho, vendo-a como “criadora incomum”.

Tadeu Chiarelli, curador e diretor do Museu de Arte Moderna de São Paulo, que possui textos reproduzidos no livro, mais de uma vez também aconselha “uma averiguação” na cidade na qual ela nasceu e viveu, já que casas e ruas compõem uma característica, onde, por exemplo, no grafismo, a submissão ao rigor técnico e a simetria das formas constituem uma marca digital. A beleza de sua interpretação mostra-se também quando captura “os objetos do cotidiano, ainda nos anos 50 (animais, frutos), até o momento atual [1997], quando a comunidade humana passa a ser a grande questão tratada em suas telas, desenhos e recortes. Dentro desse trajeto do micro para o macrocosmo, o visitante poderá perceber como a arte de Odilla se transforma numa espécie de diário de bordo de sua existência no mundo, um diário que traduz a sua percepção da vida e suas inquietações, a partir de uma subjetividade singular e original”.

A noite do lançamento do livro aconteceu no Museu de Arte de Ribeirão Preto (MARP), em um evento organizado pelo Instituto Odilla Mestriner, que divulga a obra da artista, com todo apoio da Feira do livro.

Odilla era amiga da alma da sua cidade e do mundo, tal como revela: “Toda a minha formação e trabalho são realizados aqui, onde nasci e resido. Apesar disso, minha obra não tem características regionais… A problemática de toda minha obra, sempre foi questionar o homem, o mundo, seu espaço e tempo”.

Por causa do irmão, que transpira saudade, carinho, orgulho e dedicação na pesquisa e na divulgação da obra da irmã genial, fica o achado de Júlio Chiavenato: “Todo artista deveria ter um irmão como Antonio”.