Seguramente, a Comissão da Verdade receberá o depoimento que a ex-guerrilheira e cidadã Dilma Rousseff prestou à Comissão de Direitos Humanos de Belo Horizonte sobre as torturas sofridas por ela lá, durante o período militar, e completadas aqui no DOI-CODI de São Paulo, com aquele soco que deslocou seu maxilar.

Seguramente, a Comissão o receberá com a mesma discrição com que acolhe os demais depoimentos, não conferindo-lhe nenhuma distinção, nenhum critério que seja diferente em relação a qualquer outra pessoa ou testemunho.

Mas o depoimento foi veiculado pela imprensa nacional com o nome o e sobrenome do seu torturador, o que pode despertar a curiosidade de saber, ou de imaginar, o que se passa na alma dessa figura no dia a dia de sua vida, desde quando sua vítima começou a crescer na vida pública até chegar ao auge de sua carreira, ocupando a Presidência da República pelo voto direto de milhões de brasileiros.

O torturador deve ter sentido, no correr do tempo, o seu apodrecimento moral. Afinal, ter a sua eficiência – tão glorificada na época pelos seus iguais – colocada, na escala do tempo, exatamente no lugar que a miséria humana reside. A prática torturante do pau de arara, dos choques elétricos nas regiões mais sensíveis do corpo humano, a covardia da agressão à vitima imobilizada e indefesa, tudo, tudo devagarzinho revelado para compor a biografia heroica dessa mulher, que sem ódio e com muita altivez representa os anseios de nossa gente. Enquanto de sua parte, o torturador deseja a sua própria morte, no esgoto da maldição.

Felizmente, o cristianismo traz um magistério singelo, ensinando-nos que o arrependimento atrai a benção do perdão. Por isso, a saída do torturador, por ora, é rezar muito, orar com fé para conquistar uma pouco de tranquilidade para sua alma, já que ele teve a sorte de gozar da anistia que o Estado terrorista lhe concedeu.

O problema é que seus descendentes, atuais e futuros, terão dificuldade para contar a sua história – afinal qual o orgulho de ter sido o torturador da Presidenta? E, enquanto vivo, ele poderá viver com seus fantasmas e seus delírios, imaginando que, no supermercado, no cinema, na rua, na vizinhança, na viagem, lá em outra cidade, sempre tem alguém para identificá-lo: “Esse é o cara”.

Assim, se a vitima declarou ter vivido, como torturada, o momento inesquecível “na solidão, na morte”, é esse mesmo momento, agora alongado e definitivo, que é transferido para a vida do torturador.

Eis o transplante do inferno.

Publicado originalmente em  O Diário, em 28 de junho de 2012