Se o convênio da Universidade de São Paulo com a Polícia Militar foi uma decisão da sua congregação, o erro foi coletivo. Se a decisão foi de seu reitor, o erro é pessoal.

No entanto, a gravidade máxima dessa decisão revela-se pelo precedente estabelecido e pela falta de criatividade.

Imaginar que a melhor e a mais bem conceituada universidade da América Latina não concebeu uma ideia alternativa para instrumentalizar o policiamento interno do campus, cenário de alguns delitos graves, é quase cair no lugar comum de nossos parlamentos, que perderam sua criatividade, além daquela minoria que projeta o que há de duvidoso na ética de nossos representantes.

A Universidade, porém, é o espaço consagrado da liberdade da criação, da produção intelectual, da pesquisa e da reflexão e lá a experiência de seus docentes, e particularmente a de seu reitor, professor de Direito, não poderia deixar que a tendência do pragmatismo geral − “chamem a polícia!” − invadisse predominantemente o espaço universitário, que sempre foi considerado o espaço da liberdade, tal como o “jardim de pedras”, o pátio interno da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco nas palavras poéticas e saudosas do professor Goffredo da Silva Telles Jr., e que compõe o “território livre das arcadas”. Afinal, essa tal ideologia do pragmatismo em tudo e por tudo é extremamente preocupante, já que até invadiu aquelas cabeças universitárias que venceram as esquerdas pela primeira vez na história do Diretório Acadêmico da Universidade de Brasília.

O designativo “força de ocupação” está mais pela gravidade da decisão universitária do que qualquer palavra que pudesse reduzir o esforço da Polícia Militar em se adequar ao espírito democrático de nosso tempo, porque seu despreparo está na falta de uma política de segurança pública que nossos governantes ainda não foram capazes de incentivar e realmente defini-la. Aqui, a Polícia Militar assistiria a esse comentário das arquibancadas, porque, na verdade, assinou o convênio que lhe foi proposto e aceitou sem ressalvas o cumprimento de sua missão, com a prática policial-militar conhecida por todos e estudada por órgãos da Universidade, sabendo que a polícia como regra não faz distinção entre os fumantes de maconha que estão no campus universitário e os que nunca estarão dentro dele. Mas a Polícia Militar assistiria das arquibancadas esse comentário não fosse o término glorioso do episódio, que mobilizou uma frota de veículos e mais de quatro centenas de homens armados, que enfrentaram corajosamente um punhado de estudantes para retirá-los do campo sagrado da reitoria. Os verdadeiros bandidos, que andam à solta armados até os dentes, devem ter ficado ofendidos com essa preferência policial.

O triste e o lamentável é que o espírito universitário que viaja lá nas alturas de sua liberdade, quedou-se pequeno e medíocre, para ser responsável por este fato lamentável e lamentado, seja o da ocupação da reitoria, seja o da prisão dos estudantes, seja o da retirada compulsória feita com ostentação do poder militar, digna de nosso período ditatorial.

Tal a gravidade dessa decisão inconsequente, que seu responsável, se único, deveria sofrer uma espécie de impedimento, para se afastar imediatamente do cargo de direção. Se a decisão é coletiva, é preciso lembrar que não é vergonhoso, nem humilhante, rescindir o convênio e dar solução razoável, sem precisar colocar a autoridade da Universidade em confronto com a autoridade da Polícia Militar, preservando o fundamento de não permitir ocupação policial-militar do campus universitário; e, diante do desafio dos delitos consumados e que serviram de inspiração a tal convênio, o mais adequado é a formação, quem sabe, de um corpo de vigilantes próprio da Universidade. Seguramente, essa não é a única providência, mas as demais dispensam força policial seguramente.

Como uspiano, lamento essa infeliz ideia de um convênio cuja assinatura não considera a sacralidade do campus, nem as consequências previsíveis que adviriam dele.

Publicado originalmente em O Diário, em 19 de novembro de 2011