Não há como se esquivar de uma tragédia como aquela do Rio de Janeiro. Aliás, o sentimento de solidariedade não nos permite esquivar-se de tragédia alguma, de drama humano algum.

O desespero de cada família, cujo filho ou filha morreu ou feriu-se no desabrochar da idade adolescente, dói na alma de qualquer um de nós, assim como ataca nosso espírito inconformista, já que não entendemos em um primeiro instante por que o plano divino reservou a cada criança e aos seus pais e amigos tamanha dor, perda repentina e violenta.

Num segundo momento, os que acreditam, mesmo não sabendo explicar, entregam o enigma à sabedoria do universo. E quando isso acontece, dizem que o tempo amaina o efeito da desgraça e, de alguma forma, o vazio não mais nos revolta, não mais nos causa indignação, simplesmente fica revelada em nosso convívio a estranha intimidade nossa com aquele nosso vazio. Às vezes, ou quase sempre, sobra uma lágrima solitária despencando por um rosto contraído pela saudade.

Se a dor e, em razão dela, nossa solidariedade procuram e acompanham a vitima e seus familiares humanamente, ninguém pode se esquecer do autor de tamanha desgraça, como ser humano que ele é. E aí começa a outra reflexão: em que deserto de afetividade ele se desconstruiu para se fazer, de repente, no algoz da matança calculada, como um anjo da maldade e da destruição querendo matar crianças indefesas, matando-as ou ferindo-as, como se o conjunto delas representasse o mundo que o rejeitara com requinte de humilhação?

E os fatores externos que revelam uma sociedade violenta num mundo violento como que atiçam a mente solitária, predisposta à violência, ou escondendo o ímpeto que só aguarda que acendam seu pavio para explodir.

Ora, tão estúpida é a nossa sociedade que sua imprensa, no primeiro momento da tragédia, veiculou que o matador, como terrorista que só poderia ser, teria ligação com o Islã. Uma irresponsabilidade tão grande quanto à tragédia que noticiava. Esse é o jornalismo terrorista, pode-se dizer.

Mas, ainda, caberia mais uma reflexão sobre o tamanho desmesurado do noticiário que acontece após e sobre a ocorrência trágica do Rio de Janeiro, fazendo do matador uma espécie de herói às avessas, tantas e tantas vezes que ele é falado e comentado. Essa divulgação pode ser assumida como um ensinamento para futuras matanças, para uma mente cuja patologia, ou já existe, ou está em formação.

Todos sabem da força mimética da televisão, ou seja, a força da imitação que ela tem. Tanto ela o tem que existe a propaganda dos produtos com mulheres apetitosas e tantos marmanjos. Se a televisão vende – e muito – qualquer produto que lhe paguem para divulgar, evidentemente ela “ensina” a lição subliminarmente  – “quer ser mais feliz? Compre-o”. Só que a lição da estupidez, da morte e da desgraça ela entrega de graça.

Pior do que a televisão, só aqueles políticos que, em cima do fato, saíram falando grosso, cantando a necessidade de um plebiscito sobre a proibição da venda das armas. Eles não se aperceberam, com essa proposta de oportunismo barato, que as armas da tragédia carioca não foram compradas no comércio legal de armas. Elas foram adquiridas pelo matador com a ajuda de duas pessoas, que foram presas. Ora, a realidade da tragédia está mais para que se reprima efetivamente a clandestinidade do comércio, do que fazer um plebiscito para proibir a venda legal de armas, que até pode ser proibida, em outra situação e com melhores argumentos. Será que, diante disso, o absurdo incluiria no plebiscito a estupidez da pergunta “É proibida a venda clandestina de armas de fogo?” só para ser coerente com o que serviu de inspiração a alguns políticos? Essa proposta política é, na verdade, o que se pode apelidar de irresponsável “oba, oba”.

Os políticos, não para culpar ou demonizar qualquer pessoa, professor ou servidor, poderiam fazer perguntas, sem plebiscito algum, mas para tomarem providências efetivas e objetivas, fora e dentro das escolas. Por exemplo: como uma pessoa entra numa escola, com aquela artilharia, sem que alguém, seguindo uma regra de precaução e de prudência, peça identificação e exija saber do conteúdo daquele transporte incomum num prédio escolar e público? A resposta poderia redundar em medidas de prevenção mais efetivas que um plebiscito nacional.

Afinal, o Rio de Janeiro oferece uma história acumulada de violência, que a falta de uma providência – ter alguém na porta para trabalhar nesse sentido, por exemplo – revela uma ausência gravíssima de organização escolar.

O plebiscito não resolverá esse problema das escolas. E são elas, com seus alunos, professores e servidores, que nos interessam de verdade.