Quando se procura ser justo comentando a vida de quem já faleceu, sempre aparece alguém para azedar a conversa, dizendo: “santo de casa não faz milagre”. Mas é o mundo da concorrência, que às vezes acontece até na disputa silenciosa da vaidade pela vaidade, que exclui do reconhecimento público atual, que seria justo, o valor provado e comprovado de determinado cidadão numa comunidade, fazendo com que em vida ele não tenha reconhecido o seu “milagre”.

Foi isso que me ocorreu assistindo no dia 19, lá em Presidente Prudente, na Casa do Médico, o show que Zelmo Denari e seus convidados ofereceram à cidade, num encontro que reuniu músicos da terra da melhor qualidade artístico-musical, e ainda contou com a presença de pianista e cantora que vieram de Jundiaí como convidados, compondo o que foi rigorosamente um espetáculo de gala. Noite de Jazz & Cia. é um evento que se repete pela quinta vez e que tem vocação de marca registrada para estar na pauta cultural da cidade, para seu orgulho e sua divulgação como centro de um momento de irradiação de harmonia, beleza e trabalho coletivo, apoiado por patrocinadores locais e pela Secretaria da Cultura, que poderia apresentar nos bairros o DVD dessa noite, não só para esparramar cultura, como também para capturar novos talentos e novas vocações.

Ficou claro que, como evento cultural, é necessário uma conscientização. Assim, a apresentação feita pelo seu idealizador caracterizou-se antes por uma quase informalidade na apresentação, marcada por pequenas e breves explicações que situavam a música ou seu gênero no espaço e no tempo de sua concepção e propagação. A bossa nova da década de cinquenta, que não é um gênero popular, incorporou “uma das técnicas mais difíceis e herméticas do jazz tradicional, que é a improvisação” e da alma carioca ela trouxe a magia do seu balanço, sendo assim exportada, sendo assim vitoriosa na conquista do mundo. Zelmo, sobre ela, diz: ”fruto de uma elaboração musical caracterizada pela riqueza harmônica associada ao virtuosismo dos acordes musicais”.

Depois dela surgiu a MPB, a denominada música popular brasileira, denunciante de nossas mazelas sociais. E quando acontece o golpe de 1964 vivencia-se o provérbio “o que não pode ser contado, deve ser cantado”, e por aí a arte musical como inspiração, que vale como consciência crítica, esteve por dentro, por fora, do lado e na frente das violações dos direitos fundamentais da pessoa, expondo a supressão da liberdade e ainda alimentando de esperança o coração de cada vivente ou combatente, no cenário da vida e da luta.

Noite de improviso do sax-tenorista Aloísio Cavalcanti, que já integrou a banda de Hermeto Paschoal, e do baixista Edmilson Pequeno, que revivem a alma do jazz com a sensibilidade artística e a inspiração da alma brasileira. Cancionistas prudentinos que o encontro tem o objetivo de reunir com outros da região. E, antes deles, dois do jazz de vanguarda se apresentaram com igual qualidade, um no piano, João Paulo, e Adriana, sua esposa, como cantora.

Acontece que santo da casa não faz milagre. Apesar de agir e fazer tantas coisas, Zelmo Denari, um autodidata da música, pianista que também compõe tantas partituras, não se fez conhecido pela música. Ele concentra talentos outros, como o de ser um brilhante advogado, um extraordinário procurador do Estado, que tinha as ideias inovadoras para resolver os conflitos do Pontal do Paranapanema, que conhece como ninguém; é professor de Direito, membro de bancas examinadoras pelo Brasil afora. Nos congressos, suas teses possuem a simplicidade inovadora de não ter bibliografia, ficando por conta de seu gênio criativo as ideias que defende e propaga. Ele é escritor, escreve contos, escreve peças de teatro. Em uma delas assisti a sua encenação: Olinda, Olinda. E ainda tem seu nome escrito, como um de seus autores, no Código do Consumidor.

Quando disse que “santo de casa não faz milagre”, foi para dizer: “Zelmo Denari é cidadão presente na vida político-administrativa da cidade, assim como na sua vida político-cultural”. Ele é respeitadíssimo, mas acredito que por muito e muito que se respeite um cidadão como esse, ainda é insuficiente para dar a ele o devido reconhecimento, que tanto ele merece. Afinal, ele é o “santo da casa” que quase faz milagre.

Publicado originalmente em O Diário, em 26 de abril de 2011