A tecnologia que serve às redes sociais está causando extraordinária e simultânea conscientização nos regimes políticos, nos autoritários ou ditatoriais, ou até mesmo nos democráticos, como o do Chile, estando todos às voltas com manifestações populares, determinantes de novos rumos dos ventos anunciadores da liberdade.

Há pouco, centenas de cidades do mundo se viram com suas avenidas e praças com milhares de pessoas protestando contra a herança mundial do neoliberalismo, que, na crise econômica e financeira que atingiu inicialmente os Estados Unidos, agora coloca a Europa como a bola da vez. Mas, o desemprego, se já havia antes dessa crise, passou a se agravar, reduzindo o padrão de vida de milhões de pessoas, que aceitam a palavra da mobilização e saem pelas ruas, avenidas e praças protestando. Se a globalização é vista a partir da economia e das finanças mundiais, agora já surgiu, na ponta contrária e com força de tsunami, o protesto globalizado, facilitado evidentemente pela tecnologia de comunicação de massa, na qual se inserem as redes sociais, que ligam os jovens dos quais partem os gritos da revolta e também os adultos de muitos países, pelo mundo todo.

E não é só a moda imposta pelos modelos profissionais, com as roupas, vestidos, ternos, camisas e sapatos, que traz consigo a força da imitação, fazendo com que seus adeptos estejam na simetria da passarela. Não é só a televisão, que incentiva o consumo de bens e produtos, fazendo com que muitos consumam porque podem e que muitos queiram consumir sem poder, estabelecendo não se sabe que tipo de sentimentos destrutivos ou construtivos. O protesto de multidões em várias cidades de muitos países também afeta a sensibilidade e a consciência com uma certeza inimaginável: “É possível!”.

Não se pode dizer que um regime de qualquer grau de democracia e liberdade será o mesmo depois de uma manifestação como essa: povo na rua, gritando e protestando.

Para alguns pensadores, a democracia será muito beneficiada com esse avanço. Talvez num futuro próximo não haja mais intermediários entre a população e o Poder e com isso os cargos de deputados, senadores e vereadores se transformem em peça de museu.

No entanto, esse pensamento que muitos pensam ser um delírio, já tem um exemplo acontecendo. Na Islândia, um país de 300 mil habitantes, depois de vivenciar um período de turbulência, elegeu um governo de centro-esquerda, que está sob permanente vigilância popular. Esse governo organiza agora uma Constituição, pela internet, com a contribuição de quem queira contribuir, para, após sua conclusão, ser submetida à aprovação popular.

Vê-se por esse exemplo atualíssimo que não é preciso maior número de deputados e vereadores em nossos parlamentos ou câmaras, pois, por maior que seja o numero deles, jamais todos representarão toda sociedade civil, que se faz representar por tantos outros grupos, associações e organizações sociais.

Na verdade, o anúncio do tempo é claro: está chegando uma nova proposta de vivência, militância e organização democrática. O momento grandioso da soberania popular constrói, via internet, o pacto fundamental da convivência social, que é a sua Constituição, lá na Islândia.

O grande problema é aprofundar o risco da manipulação numa democracia com tal perfil, para a qual será mais fácil a coordenação por um autoritarismo, quem sabe, que a vida nos ensinou a repudiar.

Publicado originalmente em O Diário, em 13 de novembro de 2011