Eles se reuniram para orar e decidir.

Reuniram-se os deuses do mar, do vento, da montanha e da chuva. Discutiram que nenhum, sozinho, depois da acusação do crime, poderia arcar com o peso eterno de conduzir de um plano a outro o amante da liberdade, o devoto da democracia, o anticandidato na ditadura, o senhor Diretas, o papa da Constituinte.

Oraram e choraram.

Decidiram os deuses.

Para um homem de tamanha envergadura, o melhor, na hora da travessia de seu grande espírito só valeria a mágica conspiração. Só ela faria justiça àquela dignidade humana, cujo tempo histórico tivera o decreto autoritário de seu fim.

Os homens públicos de seu país compreenderiam o gosto dos deuses. O povo descobriria, dentro de si, uma imensidão, como o mar, de respeito e estima, por aquele velho careca, que tantos diziam, como rótulo de seu espírito planetário, ser uma universidade. Não seria, afinal, um risco tirar o corpo envelhecido daquela alma nobre e poderosa sem abalar o silêncio do universo, na sua provável rebeldia de não querer ir antes de realizar mais um sonho?

Então, os deuses do mar, do vento, da chuva e da montanha oraram, choraram e decidiram derrubar, juntos, no mar e aos pedações, o helicóptero do doutor Ulysses.

“Navegar é preciso. Viver não é preciso”. Ele cantava e vivia o poeta.

Foi arte dos deuses.

Doutor Ulysses está no mar, porque navegar é sempre preciso, até os confins do sempre. Os deuses, como o poeta, e alguns homens, sabem disso.

Ele sabia. Como sabia a arte dos deuses.

Publicado em A Cidade, em 16 de outubro de 1992